sábado, 18 de dezembro de 2010

Edição Extraordinária 42 - Camisa de força



-  E aí, Celinho?  Gostando de fazer meu pai chorar?
Foi assim que Ciça recebeu Celinho Balona quando ele entrou lá em casa, dizendo que era pro Tomás ficar bom em matemática.
É que eu tinha comentado com ele que Tomás virava três, quatro caixas de isopor no Meu Sítio e, usando garrafa pet de baqueta, improvisava sessões intermináveis de bateria.

Celinho, entre um caminhão de coisas que ele empreende, é doido de jogar pedra e músico.  Baterista.  E dos bãos.  Acompanha o velho Balonão, sempre. Roberto Menescal, quando vem a BH, não abre mão dele.  Quando ficar velho, vai tocar igual ao baterista do Paul McCartney, de tão moleque.

Gêisa caiu igual um patinho, tadinha, na história da matemática.  Celinho explicava a importância que a divisão e o compasso iam ter na vida dele e ela, falando comigo:  por que nós nunca demos uma bateria pros meninos, gente?  Como é que nós não pensamos nisto antes?

Tomás olhou pra bateria como se tocasse desde criancinha.  Sem o menor medo.  Caiu de boca e comeu com farinha...

Eu, da minha parte, como de hábito, desabava em lágrimas (na hora e agora), vendo a tranqüilidade do menino com o presente novo e do quanto eu amo esses meus amigos esquisitos que, a cada hora, me surpreendem de maneira cada vez mais terna.

Claro.  Gostaria que você me indicasse algum prédio para onde eu possa me mudar.  Neste momento, estou me preparando psicologicamente para receber uma carta do síndico recomendando a todos os apartamentos que tenham bateria que se mudem para alhures[1].

Senhoras e senhores, é com indescritível prazer e orgulho que esta Saga apresenta a première deste que será o substituto de Naná Vasconcelos na música brasileira.  Como vocês, ele, o único, Tomás!



ps:  Celinho, que manja como ninguém do assunto, falou com Diogo que previu no Tomás a pegada do John Bohan.  Pra você não dizer que eu sou parcial, faça seu próprio julgamento.
Em não concordando, é porque você não entende nada de música, claro.
Pronto.  Falei.




[1] Fora de brincadeira, isto aconteceu exatamente como eu estou descrevendo com Fábio Kon, filho do Zeca, meu irmão de São Paulo.
Fábio tocava bateria na sala e o síndico mandou uma carta pra TODOS os apartamentos do prédio, pra não parecer coisa pessoal.
-  Pedimos a todos os moradores que tenham bateria em casa blá blá blá ...
Como se isto fosse super normal.
Hoje Fábio terminou um doutorato em Computer Science pela University of Illinois at Urbana-Champaign e, antes de eu perder o contato, estava na USP.
Vou procurar o próprio pra referendar a história.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Edição Extraordinária 41 - Mó responsa



Terça que vem, lua cheia chegando, vai rolar mais um NefroWalker.  Vai ser a Volta da Praça Floriano Peixoto, recém-inaugurada[1], bem na frente do quartel do 1º Batalhão da PM.

O mapa vai logo aqui embaixo, mas fica ali naquele cantinho da Contorno, mistura de Av. Brasil com Rua Niquelina, na frente do Hospital da Unimed[2].  A praça está a maior gracinha.  Toda recuperada, uma belezura pra passear com criança.

A maior surpresa é que a Sandra, secretária do Homem, conseguiu uma Cantata de Natal da Banda da Polícia Militar de Minas Gerais[3] pra gente.  Mineiro, desconfiado, fico meio sem acreditar...  Prefiro ficar de mutuca, esperando.
Mas na hora que a banda aparecer, eu viro menino.  Saio como se fosse um guerreiro de Leônidas.  Não o corredor, que foi rompendo 40 e tantos quilômetros.  Mas daqueles, que preferiram ficar à sombra...

Ou pelo seu tradicional NefroApoio ou pelo seu lado criança que adora uma banda, dá um pulo lá na terça que vem.

Vai ser de 19:30 às 21:00 horas.





[1] Esqueci, com o novo Acordo Ortográfico, se tem o hífen ou não.  Como ele tem uma tolerância até uma data que eu esqueci também, vai com.
E por falar em esquecer, se você tiver algum remédio bom pra Alzheimer pra me indicar, por favor, feel free.

[2] Merchã:  A Unimed não é patrocinadora, mas dá a maior força na minha hemo.

[3] Este post hoje tá que é puro merchâ...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

CarboNeutralizado - 135



A gente tem feito investimento pesado no Meu Sítio, plantando árvores.  E o investimento tem sido regiamente remunerado com a vinda de passarinhos, em bandos, chilreando em volta da casa e iluminando sempre nossos finais de semana.

Uma das liturgias que a gente gosta muito é convidar quem aparece pela primeira vez pra deixar sua árvore plantada pra posteridade. 

Fábia já deixou alguns ipês pra gente, Caco plantou, bem antes de viajar pra Paris com a Lude, uma jaboticabeira que está florida até o talo e deve dar fruto pela primeira vez por estes dias, junto com o nascimento da Flora.  Gilson, irmão da Gêisa, é mestre em pau-brasil e pau-mulato.  Tem o Bosque dos Netos, onde eu plantei uma renca de jacarandás e cedros, pra uso dos filhos dos meninos, na hora e do jeito que melhor lhes aprouver.

Domingo, o Comandante Pitella, disposto a garantir sua cota de acesso ao paraíso, chega lá com dezesseis mudas pra Dona Gêisa.  Tinha pau-ferro, jatobá, pau-d’óleo, e umas lá que ele nem sabia exatamente do que se tratava.

O legal da história é que a toda hora eu lembro de Hyacinthe de Montera, que morou conosco na França e vaticinou, meio que sem esperança:
-  Vous en aurez pour longtemps![1]
A expressão queria dizer que havia um mundo de trabalho nos esperando pra ser feito.

Claro, a gente trabalhou pra danar.  Principalmente Gêisa e os meninos.  Mas cada vez que eu vejo as mudinhas virando árvore, tenho vontade de falar com o Hyacinthe que nem foi tão longtemps assim.

Eu sou deste jeito mesmo.  Depois que está feito, deleto logo o trabalhão que deu...


ps:  acho que Gêisa esquece o trabalhão com menos facilidade que eu.



[1] Acho que já falei disto aqui, mas fiquei com preguiça de procurar onde exatamente.  Se eu lembrar, eu mudo e você nem vai notar...


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Criei um monstro - 134



Minha maior tristeza é que Tomás detesta falar ao telefone.  Com qualquer um.  Eu peço, Gêisa pede, Vovó Magda, Vovô Paulo...
Telefone, nada! retruca sempre o menino, tapando os ouvidos.

Outro dia ele estava no meu quarto conversando com as meninas e eu, meio desprentensiosamente, liguei de um outro quarto pro celular da Ciça e me identifiquei como Papai Noel.  Dizem as meninas que ele atendeu, siderado.  Conversou comigo longamente, falou que estava sendo um bom menino, mentiu de maneira descarada sobre obedecer papai e mamãe e sobre preferir verduras e legumes coloridinhos em vez de McDonald’s.  Finalmente, tomou a iniciativa de me perguntar como estava indo meu ofício de fazer e distribuir presentes.

Falou que queria uma moto grandona, um carro grandão e mais blá blá blá.  Aí perguntei sobre o que as tias queriam de presente e ele lá, rendendo o maior assunto com o bom velhinho.  Desligamos e eu, fingindo inocente, corri pro quarto em que ele estava.  Tomás gargalhava, numa felicidade, muito maior que eu pudesse imaginar.  O menino ficou enlouquecido.  Papai Noel existia e tinha o telefone dele...

Daí, descoberto o macete, liguei pra ele umas três vezes mais, sob pretexto de ter perdido a lista, ou para definir a cor exata do carro que ele queria, enfim, encheção de lingüiça, só pra aproveitar a onda.

Lisa, rapidinho, entrou na trilha.  Ligou pra ele, aproveitando a boa vontade em falar ao telefone que a perspectiva de falar com Santa tinha se instalado no menino.  Diz ela que da última vez ele já atendeu meio impaciente:
-  Mas eu já te falei três vezes o que eu quero...

Ontem, Gêisa telefonou no final da tarde, pra ver se a casa estava indo bem sob minha coordenação, como faz todo dia, desde que eu vivo em prisão domiciliar.
Tomás me atropelou e atendeu o telefone na minha frente:
-  Papai Noel?

Tá assim agora...




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Edição Extraordinária 40 - Feliz Natal



Eu havia postado no facebook.  Lisa achou meio weird.  Mas Gisele, minha irmã de São Paulo, filha do Valentim, meu irmão, reclamou da falta do gorro.
Corri ontem, comprei, e fiz o maior sucesso na hemo.
De novo

Feliz Natal pra você e pra quem te ama.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Overbooking - 133



Já faz algum tempinho que o Ano Novo no Meu Sítio bomba que é uma loucura.  Começou com Fábia Lima, irmã do Diogo, que é a maior festeira de Belo Horizonte.  A primeira vez, o pretexto dela era buscar a paz.  Diogo, que é um facebook ambulante, vai convidando o mundo e amontoando os amigos de um jeito que Dona Gêisa morre de vergonha.

Agora já ficou mais organizado.  Diogo fecha o hotel de Cachoeira da Prata, o Coimbra Palace[1], e os amigos dos meninos só vão chegando.  A cada vez, aparece uma surpresa.

O DJ Kowalsky, marido de Fábia, já montou várias pick-ups e rolou compactos de 45 rotações a noite toda.  Flavia do Zé, do Baltazar, trouxe um arroz de castanha portuguesa da gente comer de joelhos.  Comandante Pitella da Raquel faz sua especialidade, as chicken wings flamejantes. Leo Gomes causa. Et ça suffit. Que é também a especialidade do Rui.  Ahmed, meio sem paciência, arrasa no Campeonato Mundial de Vôlei de piscina.  Bicolor, irmão gêmeo do Diogo, sempre fala que não vai, e chega 23:59[2].

Este ano, como a Anac proibiu overbooking, se eu fosse você fazia logo a reserva.  Cris da Ciça já montou a agência de viagens virtual e vai cuidando de alocar os convidados pela casa.  Tem várias modalidades de hospedagem: quarto amontoado, barraca, sofá da sala, hotel da cidade e colconhete na varanda, com direito a acordar de manhã com lambida de cachorro.

A única coisa que a gente não conseguiu controlar até hoje é o despertador.  Bem cedinho, as galinhas d’angola rodam pelo Meu Sítio todo, celebrando o ano novo.  Lisa cuida de acordar o resto do povo, despejando sua ira nas coitadinhas...

Mas aí, em um minutinho, a gente começa a farra toda de novo...


[1] R$ 35,00 a diária com café da manhã.  Claro, não se inclui em NENHUMA categoria da Embratur...

[2] Agora acabou, Batbico.  Só entra com Fabiana.

Edição Extraordinária 39 - Wikileaks



Gustavo é Máfia Azul desde pequeninho.  Daqueles com sangue nos olhos.  Por causa disto já foi, acompanhando o time, num punhado de estádios, por este Brasilzão.  Esta semana, ele deu tudo de si para estar presente no Milagre de Sete Lagoas.  Já estava com o ingresso comprado e busão garantido.

Foi quando, com a pior das intenções, um primo garantiu carona sob o pretexto de chegar mais cedo na Lacoste International Sports Arena.  O convite parecia não ter erro.  Uma carona, simples assim.

Só que, no meio do caminho, o primo liga pra nós e, em troca de cerveja e churrasco, resolve passar no Meu Sítio antes.  Desvio pequeno.  Uns 60 km, ida e volta.  Com o calor que rolou hoje, sem ar condicionado no carro, deve ter parecido uns 120.

Gustavão passou a tarde toda tenso.  Com medo de perder o jogo, à medida que o motorista se embebedava, Gustavo não abria a boca.  O primo, uma talagada atrás da outra, dizia estar esperando Diogo, com quem tinha combinado de ir ao jogo.  Que, por sua vez, havia saído pra passear a cavalo.

Diogo chegou quando faltavam uns 10 minutos pra começar o jogo.  Nem sabia da história mal contada.  Já completamente tonto, o primo tentava de toda maneira rebocar Diogo pra Arena do Jacaré.

Da minha parte, pelo que entendi, enquanto o Mineirão não ficar pronto, este tipo de visita vai se multiplicar.

Quem era?
Não conto nem sob tortura.  É que o vazamento de informação confidencial agora virou mania.  A informação me chegou, chequei e é verídica.  Por dever de ofício, não posso citar a fonte.

Mas se a mulher do cara passar por este blog, a situação vai ficar preta na casa do Tank...



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tim Tim - 132



Não é à toa que Ives é o personal chef de cuisine do Valente.  Além de fazer questão de nos preparar surpresas nas nossas NefroWalkers, como o caldo de costela da Volta da Lagoa Seca ou a Caesar Salad Saltless da Volta da Barragem Santa Lúcia, Ives fica sempre atento a questões alimentares.

Esta semana recebi um email dele, com uma notícia que circulava na imprensa.  Está lá no http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/834861-suco-de-roma-reduz-risco-de-inflamacao-apos-hemodialise.shtml .
A matéria fala sobre uma relação entre o suco de romã (melhor se natural) e a redução do risco de infecção, que é uma das causas de morte mais recorrentes nos pacientes que fazem hemodiálise.
Diz a autora que pela grande concentração de antioxidante, o suco ajuda a combater a quantidade de radical livre em circulação após a hemodiálise, que acaba facilitando o aparecimento de inflamação.

Por via das dúvidas, tomei minhas duas providências que a situação exigia.  Corri no site da American Society of Nephrology e conferi. Tinha lá o abstract do trabalho, apresentado no 43rd Annual Meeting and Scientific Exposition no dia 18 de novembro de 2010, em Denver[1].  Informação fresquinha, como o suco deve ser.

A segunda providência foi checar com Dr. José Augusto, meu personal nephrologist na hemo.  Ontem Zé confirmou comigo que havia recebido a revista com o trabalho.  Recomendava o suco, três vezes por semana.
Agora eu ando, feito doido, tentando fazer o suco.  Bater tudo no liquidificador, fica horrível.  Imbebível.  Ives fala que deve ser usado algum tipo de centrifugação que retira a polpa e deixa os caroços.  Estou tentando ver se dá certo.  A nutricionista na hemo está procurando notícia pra me ajudar.

No embalo, Ives recomenda que eu vá aumentando o número de pés de romã que eu tenho no Meu Sítio.  Bom pro Dia de Reis e pra fazer meus suquinhos.  Já estou empenhado nisto.  Mas se você tiver alguma idéia sobre como transformar a romã em um belo suco, por favor, mande aqui pro blog.

Prometo citar os créditos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rebeldia - 131



Tem já um tempinho que Tomás estuda no Clic.  Não é exatamente uma escolinha.  Elas se autointitulam um Centro Lúdico.  E uma das coisas que eu mais gosto do Clic é que eles estimulam a criança a argumentar.  A colocar pra fora, em vez de ficar sofrendo, insatisfeito

Desde a mais tenra, a cada vez que alguém contradizia o Tomás, ou ele ficava amuado ou ia pra um canto, curtir sua profunda dor por não ter toda a humanidade ao seu lado.

Lá no Clic, a Bárbara, professora dele, estimula  cada uma das crianças a expressar seu descontentamento.  Não precisa chorar, não precisa brigar, só falar:  Não gostei!
Com freqüência eu me pego, me deliciando com esta facilidade pra expor seu sentimento, coisa com a qual eu não fui acostumado, ele aprendendo a estabelecer relações mais claras com quem ele convive.

Tem vez que é um desacerto.  A gente telefona, cheio de saudade, e ele, na lata, fala com Carol:  Não quero falar!
E acabou o assunto.  Não há nada que convença aquele anjinho a pegar no telefone.

Agora ele acabou de entender como se encerra uma discussão.  A gente convida:  Vamos pra piscina, Tomás?
E ele:  Piscina, nada!
Tomás, vamos almoçar?
Almoçar, nada!
Vem dormir aqui comigo, Tomás.
Dormir, nada.

Nada, pra ele, significa ponto final.

Ciça acha isto a coisa mais engraçada do mundo.  A bem da verdade, eu também.  A um ponto tal que incorporamos a reação como uma gíria interna aqui de casa.

-  Ciça, me deixa ali na Savassi?
-  Savassi nada!

Eu e Ciça ficamos nos esgrimindo pra ver quem surpreende o outro com o uso mais adequado da expressão criada pelo Tomás.

Surpreende, nada!

sábado, 27 de novembro de 2010

Edição Extraordinária 38 - Networking no NefroWalkers



Você não acredita quando eu falo que as caminhadas estão bombando.  Este pessoal não pode esperar até o final.  O do cantinho, com o violão, tinha um compromisso em São Paulo e não podia ficar.  O de gravata, logo acima, ia começar uma guerra não sei onde.

Começa sempre comigo ansioso.  Vou pro lugar meia hora antes e fico esperando.  Será que vem alguém hoje?  E aí vai chegando.  Desta vez, Flavinha, minha irmã e personal physical educator, comandou o alongamento.  Meio desajeitado, tive o Tutuca se transformando em poste, pra conseguir alongar panturrilha.


Aí a gente vai começando.  O legal é que, como cada um vai no seu ritmo, o grupo vai se alongando pela pista.  Fica uma turma mais atlética na frente, uma mais lerda pra trás.


Mas, Jesus, eu não volto ali nunca mais.  A volta da barragem era interminável.

Ao final, Ives, nosso personal chef de cuisine, com seu coração maior que o trajeto, aprontou a surpresinha do dia: uma Caesar Salad, toda temperada com aceto balsâmico e sei lá mais o que, com zero de sal, que provocou até a integração do grupo com os homens da lei.


Feio da festa, mas desculpável pelo motivo, foi só o Bernardo.  Veio da Suíça, mas perdeu a caminhada por causa do jogo do Galo.  Acabou ficando com a camiseta da Toninha, que, mais uma vez, não apareceu.


Foi lindo!

Pra ver as fotos todas, você vai no album do facebook:  http://www.facebook.com/profile.php?id=100000383380616#!/album.php?aid=31324&id=100000383380616

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vida Normal - 130



Xande, meu personal urologist, conduziu o processo da minha cura desde o comecinho.  Fui no consultório dele hoje pra mostrar os resultados de uns exames que Leco, meu personal oncologist, tinha pedido.

E, a melhor forma de celebrar a data, Dia de Ação de Graças, Xande andou me recomendando uma sublevação contra os cuidados que Gêisa anda tendo comigo.  Olha que Xande, como primo, conhece bem a superproteção da família.  Lançou, revolucionário, a senha para o levante:
-  Vida normal![1]

Como é de bom alvitre, a primeira providência foi agradecer por toda esta ajuda que eu ando tendo lá de cima.  Passei um tempo conversando com Papai, que comanda os anjos e todo mundo que anda me protegendo.  Mas, guardados os cuidados que um paciente renal crônico deve ter, aviso logo aos navegantes:  estou voltando pra quebradeira.

Manda o bom senso que, por via das dúvidas, eu fuja do confronto.  Vou fazer tudo escondido da Gêisa e dos meninos.  E colocando as manguinhas de fora devagarzinho.  A recomendação do Xande agora é meu salvo conduto.  Neguinho chamou minha atenção, eu saco do cinto de mileuma utilidades:
-  Vida normal.  Liga pro Xande e pergunta...

Ruim é que, como diz Maurilo do Pastelzinho, eu hoje sou só um velho rabugento.  Se fosse no meu tempo, eu agora ia merecer o codinome que um amigo da Lisa me reserva, irônico:
-  The Legend!
 

 

[1] A idéia do post ele me deu quando a gente saia do consultório.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

10.000 - 129



Xandão é um dos caras mais engraçados e criativos que eu conheço.  Coloca de vez em quando uns comentários ninja no FaceBook que lembram aqueles locutores de rádio do interior:
“Domingão preguicento e o nosso bom dia vai para você tem mil afazeres pro feriado, não fez nada e duvido que fará, pra você que adquiriu um sentimento forte pela cama, você que acredita na volta de Cristo, fim do mundo, mega sena, pra você que adora falar que trabalha muito mas é um vagabundo, você que tá com o saco ferido de tanto coçar, pra todo mundo que não vale uma cibalena vencida, o nosso booom diaaaa vidaaaaaaa!!!”

Ontem eu completei 10.000 visitantes no blog.  10.016, pra ser mais exato, depois que o Google Analytics começou a me auditar no dia 8 de abril deste ano.  Fico vendo esta variedade de gente que Xandão pôe nos recados dele e enxergo todo mundo aqui, me lendo.  No começo era pra falar da minha doença.  Depois foi pra falar da busca pela cura.  Agora, é só borrachinha, já que a situação ficou bem mais bacana.

Olha que doideira:  29 países.  Tudo bem.  Os óbvios a gente entende: Brasil, França, Bélgica, Estados Unidos, Portugal, Suiça, Canadá, Inglaterra tem sempre alguém da torcida, algum parente perdido pelo mundo.  Mas o que uma pessoa sensata da Bulgária, Filipinas, Afeganistão, Ukrania, Polônia, Suécia ou Rússia vai fazer lendo esta bobagem?  Em português?
Tem 3 entradas da Suécia com tempo médio de 16:07 minutos.  E umas meia dúzia do Canadá com 4:00.  
Vai entender...

A grande média dos brasileiros é de quase dois minutos no blog.  Ô gentinha a toa, esses brasileiros.  E quase que metade (46,78%) vem direto, sem passar por site de pesquisa ou indicação de outro blog.

Por isto que eu desejo a você que se dedica ao intrépido lavouro austero, o nosso benévolo dia de bom agouro vai para você, seu pulhastro, biltre de galináceo, cão lazarento, néscio de uma figa, escrotário, malfeito, ordinário, cabrão, paneleiro, bucéfalo anácrono, você traquina, vil e desprezível, pra você, seu cachorro molhado que tá gripado, com sinusite, rinite, conjuntivite, melequite, que tira meleca no trânsito, que limpa debaixo da mesa, na sola do sapato e bate o reboco verde nas paredes alheias, pra você que fuma muito e tosse com textura de ostra, você alérgico, que espirra aquele spray seguido de uma cordinha, para todos os catarrentos e nojentos do Brasil[1] (e do mundo, completo eu), o nosso booom diaaa vidaaa!!!

É um prazer enorme escrever estas bobagens pra vocês.




[1] Texto chupado na tora do Moet et Xandom no facebook


domingo, 21 de novembro de 2010

En vida, amigo - 128



Quando eu era pequeno, minha referência de família sempre era Governador Valadares.  Papai e Mamãe são primos e a família da mamãe saiu de Virginópolis pra começar Governador com o povo do papai, que saiu de Guanhães.
Pra mim, então, Governador só tinha duas coisas: primo e festa.  
As duas, fabulosas.

A gente ia pra lá sem nem se perguntar onde ia ficar.  Era sempre na casa de alguém.  E isto era preciso o suficiente pra gente viajar.  Com quem, onde, não tinha a menor importância.  Sempre tinha lugar.

Aí, nas festas, juntava todo mundo.  Era sempre uma farra.  Cobrindo com lona, um circo; cercando com muro, um hospício.

Passou um tempo, a gente cresceu e os encontros ficavam cada vez mais difíceis, cada um com as dificuldades da vida, e a gente só se encontrava em velório.  Cada vez que morria alguém, ia todo mundo correndo em Governador e voltava correndo.

Quando mamãe completou 80 anos eu senti o movimento pra reverter o quadro.  Os meninos da Tia Fabíola vieram de Brasília, os da Tia Loló vieram de todo canto, todo mundo de Governador veio.  

Aí aconteceu outro movimento bacana.  Os bisnetos da Vovó Maricas, de vez em quando (acho que é por semestre) se encontram.  Produção de festa mesmo.  Juntam dinheiro e, normalmente ficam dois, três dia em, dizem eles, resenha.  As resenhas acontecem meio que aleatoriamente.  Ninguém fazendo questão de nada.  Marcou, vai.  Detalhe: a coisa é discriminatória total.  Neto nem pode aparecer.  Só de bisneto pra baixo.

Ontem foi aniversário da Tia Élcie, o movimento se confirmou.  Todo mundo apareceu, todo mundo feliz, todo mundo emocionado.  Tico me fez lembrar de um poema que eu nem lembro nem autor nem de onde que ele entrou na minha vida.  Mas tá lá.  Serve pra mamãe, pra sua mãe e pra nós todos.  Acho que é anônimo.




En vida, amigo, en vida

Si quieres hacer feliz
a alguien que quieres mucho,
dicelo hoy e dale gusto.
En vida, amigo, en vida.


Si quieres dar una flor,
no esperes a que se muera,
mándale hoy con amor,
en vida, amigo, en vida.


Si quieres decir "te quiero",
a la gente de tu casa,
al amigo, cerca o lejos, dicelo
hoy, en vida, amigo, en vida.


No esperes a que se muera
la gente para quererla
y hacerle sentir tu afecto.
En vida, amigo, en vida.


Tu serás mucho más feliz,
si sabes dar felicidad,
a la gente que conoces,
en vida, amigo, en vida.


Mejor que visitar panteones,
y llenar tumbas de flores,
llena de amor corazónes,
en vida, amigo, en vida.
 

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Crias - 127



Dênio foi meu braço direito por onde eu passei.  Trabalhou comigo na Cedro, na Alterosa e onde eu ia, pedia sempre que ele me ajudasse a organizar o projeto.  E juntos a gente fez belas inventações de moda pela vida.

Esta semana eu fui a uma aula dele, assistir uma palestra do Diogo sobre produção de vídeo.  Tudo bem, eu estou longe de ser imparcial nesta questão.  Mas fiquei maravilhado com a aisance[1] do Diogo pra falar com a platéia, toda de gestores de empresas.  E fiquei pensando porque, ó raios, ele não caminha pra sala de aula.
Parecia que ele estava com uma turma de amigos em um bar, conversando sobre como foi o dia.

No final, quando Dênio se desmanchava em agradecimentos, me colocou no meio e começou a agradecer sobre o quanto tinha sido bom a gente ter estado ali.  Lembrei, e mostrei a ele, um recado que ele tinha me mandado pelo celular, há um tempo atrás, e que eu guardo como um troféu:
-  Serei homenageado como professor.  Devo isto a você.
Achei que a turma, doida pra ir embora, tinha passado batida das lagriminhas que rolaram.  Mas as palmas denunciaram que eles tinham sacado o clima...

No final, meio mascarado, Diogo me arrasou, rindo irônico:
-  Eu achei até que você demorou a chorar.

Tivesse sido hoje, ia ser bem mais duro.  Porque, com tudo que eu já passei pela vida, a única coisa que eu tenho medo é de alguma coisa não boa acontecer com minhas crias.

Fiquei sabendo que uma filha de uma das minhas irmãs está com uma gravidez danada de complicada e arriscada.  Pro bem dela, ela está sendo assistida em um hospital de referência mundial.  Lembrei de quando a Lisa me falou do Richarlyson.
Eu e a mãe dela caímos no choro.

E você, em vez de tentar descobrir quem é, reza pra quando o parto acontecer, correr tudo bem.

Como se diz lá na roça, Nossa Senhora do Parto há de lhe dar uma boa hora.
E como eu digo comigo desde o comecinho dessa minha busca pela cura aqui, aqui e aqui, vai ser tudo como Deus quiser.


[1] De être à l’aise,  Segundo o Petit Robert, facilité naturel qui ne donne aucune impression d’effort.  Menino nojento, eu...  Pó falar!



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Edição Extraordinária 37 - Sakana



Outro dia. Maurilo me manda um recado pelo facebook. Meio enigmático, me diz:  “Acho que vc vai gostar desse blog. É uma peça rara que eu conheci via pastelzinho”.

É, de longe a pessoa mais mal humorada e ácida do mundo.  Mimada até não poder mais.  Ou seja, encantadora.  Resumindo: apesar das ameaças expressas no blog que ninguém tentasse seduzir a japa, caí de quatro, apaixonado.

Sakana-san é publicitária e está na fila de um transplante duplo.  Rins e pâncreas.  Trinta e poucos anos e a-do-ra comprar briga.  Espalha pro mundo que é mimada e maneja palavras, desvio profissional, com uma precisão que acaba se divertindo com o impacto que as falas dela provocam no interlocutor.

Acho superengraçado o jeito que se recusa a criar laços com o povo da diálise dela.  Eu me vi entrando no primeiro dia da diálise do jeito que ela descreveu.  Todo mundo querendo puxar assunto com a nova colega de infortúnio e ela desfilando, como se não tivesse ninguém na sala.  Travava nem contato visual.
Só que comigo foi o contrário.  Eu, em pânico, doido pra encontrar alguém que me contasse o que era aquilo.
Diz ela que não queria criar laço  com ninguém, que ela não queria sofrer quando perdesse.
Aí me lembrei do Geraldo Doido e da Dona Índia, que morreram depois que entrei na hemo.  Mas que adorei ter conhecido.

O mais legal é que Sakana-san vai desvelando sua doçura aos poucos.  Não é aquela coisa desavergonhada a que eu recorro com frequência.  Diz ela que precisa ser conquistada.

Comecei a ver isto mais claramente quando ela fala do seu Nagibe, um turcão, suponho eu, que deve achar que ninguém percebe o cabelo pintado.  Falei com ela no comments:  Dançou.  Ficou amiga dele...

Neste momento estou vivendo em lua de mel.  É que ela não sabe anexar vídeos no blog e olha pra mim como se eu fosse o Bill Gates, porque Lisa minha filha me passou o canal.  Fui fazer bonito e anexar pra ela.  Dancei...

Azeda, ela entrou contra mim no Procon, por publicidade enganosa.  Como ela é louca com John Pizzarelli, eu, que não perco esta mania de me exibir, vou tentar fazer bonito aqui...