segunda-feira, 8 de julho de 2013

Herança


Mamãe costuma dizer que nós lá em casa não guardamos mágoa.  A gente tem é uma memória muito boa.
Neste final de semana, que eu dormi com ela, me contou uma história esplêndida, que eu conto sem citar nomes.[1]

É que mamãe recebeu uma visita de um irmão[2] e ofereceu pra ele um arroz-doce que havia feito. Engolindo seco, ele agradeceu:
-  Eu não como arroz-doce.
A cara de estranhamento da mamãe foi tão grande que nosso herói resolveu abrir o coração. 

Ele tinha seus 13 pra 14 anos quando estava com o Biá, seu companheiro de traquinagens, na fazenda da Dona Adelina, mãe do Joaquim Leão.  Os dois estavam na cozinha, de olho em um arroz-doce que estava sendo preparado.  Joaquim chegou e Dona Adelina, puro zelo, ofereceu o pitéu ainda quente.  Apressado, Joaquim declinou e partiu, sexta feira, para um trabalho que tomaria o final de semana todo.  Comeria quando voltasse, disse ele.

Cuidadosa, Dona Adelina guardou a iguaria longe das duas crianças, para ser degustada na segunda com o filho.  Biá e Fernando (ih, me escapou...) passaram todo o final de semana salivando de vontade de comer o arroz-doce mas foram mantidos a uma distância providencial.
Chega segunda feira, e, toda delicada, lá foi Dona Adelina oferecer o arroz-doce pro filho que chegara inda agorinha.  Quero não, falou Joaquim, sem dar muita trela.
-  E o bobo do Biá ainda aceitou, completou Fernando pra mamãe.

Fernando completou 70 anos este ano, perto do aniversário da mamãe.  Pois você acredita que ele ficou algo em torno de 57 anos sem comer arroz-doce e sem ninguém saber desta história?  Fora que Dona Adelina já deve ter morrido há mais de 40 anos.  E o Biá, há mais de cinco.

Quando mamãe me contou o caso, telefonei pro Fernando, convidando pra comer um arroz-doce comigo.  Do outro lado da linha, ele estourou de rir, consciente da bobagem de ter passado estes 50 e tantos anos longe da felicidade de ver o gosto do doce tomando conta de sua boca.

Acho que meu câncer pode ter vindo desta mania de guardar mágoa.  O bom é que ele também tá indo embora quando eu vou descobrindo que mágoa só machuca a gente mesmo.

Ainda bem que a risada que o Fernando reservou pra si mesmo ajuda a me ensinar a ser mais generoso e a tentar levar uma vida mais leve.
Espero que você também.







[1] É que se eu citar nome, o Fernando vai ficar magoado comigo.  Ou melhor, vai lembrar sempre desta história.

[2] Mamãe só tem um irmão vivo.  Tô achando que até o final da história, eu conto que é o Fernando.  Bora ver se eu consigo guardar o segredo.

10 comentários:

Cássia Neves disse...

Eu também nao conto a ninguem que o Fernando queria mais arroz doce! Prometo.

PC disse...

Nem brincando.
E, sobretudo, menina Lucas, não cita o nome do Fernando de jeito nenhum.

Anônimo disse...

Essa memória muito boa acaba com a gente mesmo, Paulinho! Fico tentando fazer diferente, mas...
Vale tentar

Já estava sentindo falta das postagens na Saga. ADOREI SEU RETORNO.
Bj
Regi

Renata Feldman disse...

Adoro arroz doce.
Guardar mágoa definitivamente não combina com você, Paulinho.
Abração!

Anônimo disse...

Vc conhece pouco este menino, Renata Feldman! Realmente ele não guarda mágoa, mas tem um HD enorme. Lembra de tudo que não deve

Nando disse...

Não para de escrever, mesmo que tenha alguma mágoa guardada. Fico sempre esperando mais um dos seus "causos" para rir um pouco ou até mesmo para ficar com os olhos cheio de lágrimas

PC disse...

Esse povo não me entende, Renata.
Só você mesmo,,,

PC disse...

No máximo, um pendrive. E dos pequenos, Anônimo!

Mariza disse...

Moço, que bacana.
Voce ainda tem um blog????
Quem é este Fernando?
bjs docinho

PC disse...

É Fernando, moço, irmão de Biá, tio de Zeca.
Loisa conhece ele...