quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homo Ludens



Diogo anda fazendo um serviço em Mariana que o obriga a ficar trançando, pra lá e pra cá, durante a semana.  Acabou dividindo uma casa com um amigo de lá, prá poder não ficar muito exposto aos perigos da estrada horrorosa.  O que não nos autoriza a dizer que ele tem uma casa em Mariana.  Tomás chama de “a casa onde papai trabalha”.
Casa do papai é a daqui de Belo Horizonte.


Sábado passado, lá fomos nós dar uma força pro menino, conhecer o cantinho onde ele estava vivendo a maior parte do tempo.  Tomás olhava tudo como novidade.  Adorou a viagem, adorou o anoitecer, adorou as luzes de Mariana escondida sob as brumas de final de outono, adorou as igrejas recortadas contra o negro da noite, como se estivessem pairando sobre a cidade.


No outro dia, conhecendo pela cidade, começamos o passeio visitando a Igreja de São Pedro dos Clérigos, bem no alto da colina.  Tomás adorou a oportunidade de subir no alto de uma das torres e ver a cidade do alto.  Voltou não cabendo em si:
-  A cidade parece de brinquedo, lá de cima.
Igreja São Pedro dos Clérigos, Mariana, by Fabrício Alves

E, a partir daí, tudo virou de brinquedo.  Tomás olhava as pessoas lááá longe e dizia que parecia brinquedo.
À tarde, fomos fazer o passeio do Trem da Vale.  A gente via os meandros da rodovia pela janela do trem e lá vinha o sorriso dele:
-  Parece carrinho de brinquedo.
Via Ouro Preto se descortinando ao fundo e não dava outra:
-  Parece uma cidade de brinquedo


Tudo pra ele passou a ser parte dos jogos de toquinhos de madeira onde ele construía seus castelos, os cavalos e boizinhos de brinquedo que pastavam na fazendinha de brinquedo, as montanhazinhas de brinquedo, o riozinho de brinquedo que corria, preguiçoso, pelo vale de brinquedo...


O olhar virou outro.


Tenho pra mim que Tomás aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida.  Que guardando o distanciamento adequado, os problemas, por maiores e mais complicados que pareçam, perdem sua gravidade e, de uma certa forma, viram um brinquedo que até nos permitem, a partir deles, reformular nossa visão do mundo.




terça-feira, 22 de maio de 2012

Falta



Deve ter algum dos tomos das Obras Completas do Freud falando nisto.  Ou talvez uns dois ou três seminários de Lacan falando do jeito complicado do mestre.  Eu, mais limitado, prefiro a definição que Marcelo Xavier me deu.  Diz ele que à medida que ele foi perdendo a mobilidade é que foi vendo como as ladeiras de Belo Horizonte iam ficando cada vez mais intransponíveis.


Não estou falando dos despenhadeiros do Santo Antônio.  Estou falando é daqueles aclives que um dia eu já achei suaves e que hoje, com a baixa da hemoglobina, subir eles pra mim é um desafio pra escalador nenhum colocar defeito.
Você, eu não sei.  Mas eu só me dou conta das coisas depois que elas me faltam.


Acho que é até por causa disto que eu ando cada vez mais incomodado quando vejo que as vagas para deficientes físicos andam cada vez mais ocupadas por deficientes mentais.


Paulinho Saturnino, quando era diretor da FAFICH, foi contestado por uma senhora dizendo que era privilégio.
Debochado, ele, no outro dia, colocou um cartaz na vaga:
-  Troco vaga privilegieada por duas pernas em bom estado.
Eu, outro dia, fui na PUC Minas fazer uma palestra com Laurinha Martins, da Cadeira Voadora .  Liguei antes, pra garantir que teria vaga pra ela no estacionamento.  
Acertei tudo.  Ou melhor, pensei que ...
Chegando lá, mesmo a PUC Minas tendo sido a primeira universi-dade a abraçar o projeto da inclusão [1], todas (eu quis dizer TODAS) as vagas de uma fila reservada para deficientes físicos estavam ocupadas.  E era vaga com a figurinha do cadeirante pin-tada em azul, o espaço para poder tirar a cadeira do carro e a pessoa se instalar pintado em amarelo rajado, ...  Tudo lá.  Não dava pra falar que não havia visto.


Tinham visto sim.  Os professores da PUC Minas estavam era cagando solenemente para a questão.


Foi um ótimo motivo pra inaugurar a idéia.  Eu tinha mandado fazer o sinal que ilustra este post em adesivo numa gráfica rápida.  Preguei nos carros todos.
De vez em quando, prego em supermercados ou shoppings.  Em lugares onde o pessoal não se deu conta ainda que a questão é de respeito com quem precisa.  Só pra eu e você nos darmos conta que este avanço é muito importante pra quem merece.


Da próxima vez que você pensar em usar esta vaga sem necessidade, olha pra vaga disponível mais perto do local onde você se encontrar e  pensa na pessoa que precisa tendo que romper por todo caminho, seja lá qual for a necessidade especial dela.    


Eu penso sempre na mamãe, com os joelhinhos fragilizados dela, fazendo o trajeto.
Ai de você, se eu estiver com ela, e seu carro, mesmo que só por um pouquinho, estiver ocupando a vaga de deficiente ou de idoso... 

[1]   Quando Bonifácio Teixeira, à época Pró-Reitor de Extensão, lançou o projeto Sociedade Inclusiva pouca gente entendeu do que se tratava...



A dica foi da Laurinha Martins

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Multiglota


Logo que eu comecei o blog, Bernardo, meu filho suíço[1], me alertou pra duas coisas.  Uma, que um dia eu ia ficar prisioneiro, tendo sempre que postar.  E a outra, que era fascinante passear pelo Analytics do Google, tentando entender como gente do mundo inteiro te descobre.
Há poucos dias aí pra trás est’A Saga bateu a barreira de 50.000 desocupados que acompanham as histórias do Valente.  O mais engraçado é que estes leitores, alguns fiéis e outros menos frequentes aparecem de mais de 60 países deste mundo de meu Deus.


Fico pensando que a gente até tem amigos em alguns destes países.  Mas, definitivamente, não consigo lembrar de nenhum contato meu na Sérvia, ou no Afganistão, ou Bósnia ou República Tcheca.  E, vem junto, como é que este povo destes lugares abre uma página em português e fica, em média, quase dois minutos.
Não pode ser só vendo as ilustrações do Valente...


Tudo bem.  A gente resolveu isto.


Pra você que é nerd, deve ser tranqüilo.  Mas, pra mim, é incompreensível.
Ocorre que Diego Balona, meu personal CITO – chief information technology officer, resolveu em 5 minutos uma coisa que me angustiava há muito mais tempo.  Instalou o Google Tradutor, com 53 línguas aqui na lateral direita da página de abertura.  Eu até testei em umas três ou quatro línguas que a gente consegue se comunicar.  Grosso modo, a tradução fica até aceitável


Daí, este post é pra vocês que eu não conheço.  Faça-me um favor:  você que é do outro lado do (meu) mundo, comente aqui, agora que as histórias do Valente podem ser traduzidas e, com alguma boa vontade, entendidas na sua língua, o que te faz acompanhar est’A Saga.


Mate minha curiosidade.  Por favor.


[1]  Que, ao que parece, está na bica de se casar qualquer dia destes com a flor mais bonita de Santa Rita do Sapucaí




sábado, 12 de maio de 2012

Mães, só tem uma

Tomate foi minha colega no Estadual da Serra.  Era, de longe, a mais bonita do pedaço.  Só que, além disto, era filha de Dona Marita, a diretora, o que fazia dela a mais inalcançável das garotas da sala.  O que, pra nós, não significava blicas...  Eu e mais uma quantidade imensa de gente éramos apaixonados por ela. 

Depois a gente nunca mais se separou.  Fomos pro Estadual Central, ela estava no meu casamento, nossos filhos estudaram juntos e por absoluta obra do acaso trabalhamos juntos, eu e o pai dos meninos.  Cada vez que eu estou com ela, parece que a gente se encontrou ontem no final da tarde.


Hoje ela falou de ser mãe.  Acho que vocês todas falariam algo parecido.  Olha só:


“Meu primeiro filho chegou quando eu tinha 7 anos. Era um boneco lindo de olhos azuis e que cabia direitinho nos meus braços de menina. Não sei por que dei a ele o nome de Bebê.


Passou o tempo, mudei de casa, de cidade, de profissão e de es-tado civil. E o Bebê sempre por perto: às vezes, esquecido num fundo de armário ou dentro de uma caixa com coisas do passado.


Sempre quis ser mãe. E confesso: já casei pensando nos filhos que um dia teria. E não é que eles vieram rapidinho?


Fui uma grávida de vestidos alegres. Tomava banhos demorados para sentir a barriga e os seios fartos. Desenhei e mandei fazer camisolas coloridas e cheias de flores para ir para a maternidade. Uma enfermeira comentou: “ essa mãe parece que veio de férias para um hotel”. Morri de rir!


Esperei e me preparei com imensa alegria para a chegada de meus filhos. Fazia ultra som de olhos fechados e pedia ao médico que não me falasse o sexo dos meus filhos. Queria surpresa!!!


E eles chegaram de parto normal, fazendo um enorme bué! Francisco (nome escolhido quando eu era menina) nasceu no dia 8 de setembro de 1979. Gabriel veio ao mundo em 1 de outubro de 1982.


Estão grandinhos, portanto. São filhos, filhotes, filhinhos sempre. 
E o Bebê? Vai muito bem, obrigada. Atualmente, vive numa gaveta e usa o primeiro macacão que o Chico vestiu.


Rosangela Guerra”


Fala se eu não tinha razão de ser doido com esta menina.  Fala?...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Receita


Lá vai a receita do Amor aos pedaços.


Ingredientes
-  3 xícaras de (chá) de farinha de trigo
-  1 colher de (sopa) de fermento
-  2 colheres de (sopa) de manteiga
-  1 xícara de (chá) de açúcar
-  4 ovos


Recheio:
-  1 abacaxi
-  2 xícaras de (chá) de açúcar
-  1 colher (sopa) rasa de manteiga
-  1 coco ralado
-  3 ovos


Cobertura:
-  açúcar e canela a gosto


Modo de preparo


Massa: 
Misture todos os ingredientes da massa, abra com o rolo e divida em duas partes
Reservar.


Recheio: 
Triturar o abacaxi no liquidificador.
Numa panela, acrescentar os outros ingredientes e levar ao fogo até secar o caldo
Preaquecer o forno.
Untar uma assadeira, forrar com um pouco da massa, distribuir o recheio e cobrir com a outra parte da massa.
Assar em forno médio.
Na hora de servir; cortar em quadrados e passar no açúcar com canela.


Importante:  
Separe uns quadradinhos pra mim e me chame.




ps:  Só pra lembrar a você que amanhã é o lançamento do livro da Renata Feldman na Biblioteca Pública, 19:30

sábado, 5 de maio de 2012

Rapidinha - Super Lua



Hoje, pra quem não é astrônomo, é dia de Super Lua.
Convém ficar de olho porque, a melhor hora pra ficar encantado com ela é quando tá perto do horizonte, lá pelas 19:00 horas.  Deve estar imensa, cerca de 16% maior que o normal.
E isto é coisa que só acontece de vez em quando.  A última foi 19 de março de 2011.  Aliás, dia de São José.
Melhor pedir a proteção dele,  porque, diz a lenda, que bicho fica doido e a gente se comporta mal (um pouco pior que o normal).[1]


Aproveita, quebra tudo,  fala que a culpa foi da lua e vê se cola...


[1]  A palavra lunático deve vir daí...


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Diamantina



Aproveitando o feriado do Dia do Trabalho, Tomás foi a Diamantina com o povo aqui de casa e acabei me lembrando de uma história que Léo, meu guru japa, me aplicou. É do livro Palavras Andantes, do Eduardo Galeano, que falei aqui algumas vezes.  Lembrei do pedacinho que fala assim:
“... Por favor, estou rogando, não me ofenda perguntando se esta história aconteceu.  Eu estou oferecendo-a para que o senhor faça dela o que melhor lhe aprouver.  Não lhe peço que o senhor descreva a chuva daquela noite da visitação do arcanjo:  exijo que o senhor me molhe.  Decida-se, senhor escritor, e pelo menos uma vez seja a flor que perfuma em vez de ser o cronista do aroma.  Escrever o que se vive é coisa de pouca ou nenhuma graça.  O desafio está em viver o que se escreve; e na sua idade já vai sendo hora de que o senhor fique sabendo. ...”


Pois é.  Definitivamente, a viagem que Tomás fez não foi a mesma que a família, que estava com ele o tempo todo, foi.  Um pouco, porque, a excitação de contar a história fazia dele eletricidade pura.  E muito, porque ele me puxou.  Ponto.


Começou a história contando a experiência dele no Leite ao Pé da Vaca de Curvelo[1], que foi mmmuito legal.  Diz ele que foi a parte mais legal da viagem[2].  E contava:  Começa com você colocando o banquinho assim, ó, pertinho da vaca, ó, enquanto ela fica assim, ó, e você vai fazendo assim, ó, com a mão.
Diz o povo que o leite jorrou mesmo na canequinha que deram pra ele.


Preocupado com a interação, Tomás tentava acordar o pai, coitado, devastado pelo tradicional churrasco de comemoração do ani-versário do Ginástico, que jazia, inerte, no chão.  O que fazia com que Tomás, aflito, repetisse a cada parte mais legal da história:
-  Pai, você tá perdendo...


Aí, teve um dia que foi mmmuito legal.  A parte mais legal da viagem.  Foram ver um caboclo bateando diamante e ouro.  Tomás voltou com uma sacolinha plástica repleta de pedregulhos, diamantes puros, segundo ele.  Despejou tudo no tapete da sala.
O cara pegava uma peneira de ferro, e fazia assim, ó, até aparecer o diamante.  E ele fazia assim, ó, e aparecia ouro também.


A vesperata também é mmmuito legal.  A parte mais legal da viagem.  Era uma quantidade de menino do meu tamanho, que cantava mmmuito bonito.
Sem contar com o hotel, que é mmmuito legal.  De longe, a parte mais legal da viagem.  Dormiu numa cama sozinho e tinha um café da manhã mmmuito legal.  A parte mais legal da viagem.


Tomás procurando diamante, com a companheira inseparável, 
a tal fita colorida no pulso
Domingo ele ligou pra mim antes de entrar numa gruta mmmuito legal que ele visitou.  A parte mais legal da viagem.  Logo na entrada eles colocaram uma fita colorida na mão dele, pra ele poder voltar.  Por isto que eu e o Tio Cris tivemos que colocar também, porque vai que a gente aparece em Diamantina e quer ir na gruta também?  Melhor deixar eu e Tio Cris com os punhos coloridos, mesmo sem nenhum plano de ir a Diamantina nos próximos dias meses.  É que, não sei se já falei com vocês, lá é mmmuito legal.  A parte mais legal da viagem, Diamantina...

[1]    Nos meus tempos de Cedro era do Dr. Guilherme Mascarenhas, o velhinho mais fantástico da família.  Não sei se hoje ainda é...


[2]    Tomás repetiu essa qualificação mais umas quatro ou cinco vezes.



terça-feira, 1 de maio de 2012

Amor em Pedaços



Conheci Renata nos corredores da faculdade onde a gente dava aula.  Nunca tive coragem de puxar assunto, do tanto que ela exalava doçura, enquanto conversava com as pessoas.  No sorriso, no menear de cabeça, na escolha precisa das palavras...
Ficava eu, morrendo de vergonha, e ela, tímida, cada um no seu canto, sorrindo pro outro.


Depois, o blog nos aproximou de vez.  Eu mandava notícias por est’A Saga, e ela, no Renata Feldman, que me deixa sempre encantado.  Tudo nela é assim, cheio de zelo e doçura.  Ela parece mesmo um quadradinho de amor em pedaços, dos que Tia Loló[1] fazia lá em Governador Valadares .


Aprendeu com a mãe o gosto pela leitura.  Nela, os textos, poema ou prosa, são de uma doçura, de uma suavidade, incomparáveis.


E é aí que os escritos da Renata se distinguem: eles são saborosos.  Trazem, incorporados neles, o gosto e a doçura da autora.  Só que, além do sabor, os textos vem carregados de uma empatia, de um senso de justiça, de um grau de compaixão tão elevados que o leitor é sempre desafiado a sair do lugar do deleite para a disposição de mudar seu mundo.  Ao final, a gente sempre acha que passou de leitor a protagonista.


Renata é feita daqueles bonequinhos de açúcar cândi que avó da gente colocava no chá.  Acho que os bonequinhos de açúcar cândi nem existem mais.  Foram todos preservados na Renata.  


Pelos menos a nós coube o Amor em Pedaços.  Que ela lança no dia 9 de maio, quarta feira, 19 horas, na Biblioteca Pública, e no sábado dia 12, véspera do dia das Mães, 10 e meia, no Café Book.
Vai lá.  O melhor é que esta doçura toda não engorda...  


[1]  E que a Taúta, herdeira, continua com a tradição.

ps:  Fala se ela não é uma doçura.  Fala?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Complexidade



Tudo bem que quando o assunto é Tomás, eu não sou exatamente um modelo de isenção.  Mas o menino anda sendo capaz de formular questões de uma complexidade de fazer Edgard Morin lhe conceder notório saber.  Brinca com a desordem, com a imprevisibilidade, de uma forma que deixa a lógica a seu serviço.


Ainda outro dia, usou em um raciocínio só a noção de tempo e de identidade com uma habilidade que me deixou maravilhado.
Tomás tinha chegado do Clic e, depois de tomar banho comigo, estava ali, refestelado na minha cama, vendo seus desenhos preferidos quando, entre um comercial e outro, virou-se pra mim e perguntou:
-  Vô, quando você era pai do meu pai e não era meu vô ainda, e não era velhinho igual hoje ...
E eu lá, de tão boquiaberto, nem lembro da pergunta feita por ele.


Tomás falava de uma identidade mutante, pela qual eu passava.  Já tinha havido um tempo em que eu ainda não era avô na vida.  Era só pai.  Do pai dele, é verdade.  Mas isto era pinto perto do estágio em que me encontrava hoje: o  de avô dele.


Tudo bem de novo.  O menino mudara minha vida.  Mas nem de longe eu imaginava que ele pudesse ter ciência disto.


A segunda coisa, quando ele admite que pode ter havido uma época em que eu não era velhinho igual eu sou hoje.
O tempora! O mores! [1] 
Ora, faça-me o favor, Tomás.  


Lembrei de uma vez, logo que a Lisa entrou na faculdade, quando ela chegou em casa falando que tinha um professor que me co-nhecia.
-  Ele é mais novo ou mais velho, Lisa?
Lisa fez um silêncio que me pareceu uma eternidade de tão preo-cupante e, me olhando nos olhos, inquiriu:
-  Da sua idade é o quê?


Filha ou neto, esses meninos estão sempre nos ensinando alguma coisa...


[1]  Este blog também é cultura!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Empreendedorismo Social


A primeira vez que eu ouvi falar nisto foi numa palestra do Marcus Regueira.  Eu até já tinha me envolvido em projetos de voluntariado com o Pacto de Minas pela Educação, no Movimento de Cidadania pelas Águas, e em um punhado de outras coisas que me faziam feliz.  Era o que me bastava.  
Mas meu envolvimento era meio diletante.  Fazia de vez em quando, a hora que eu queria...
Um compromisso meia boca.


Marcus propunha um empreendedorismo mesmo.  Resultado, desempenho, indicadores, tudo funcionando no terceiro setor como se fosse do setor privado.
Aquilo me deixou incomodado, como se fosse incompatível uma coisa com a outra.


Depois do post do Movimento Colibri, Kátia Becho, amor da minha vida, me aplicou no filme Quem se Importa, que está sendo lançado esses dias pelo Brasil afora[1].  Conta a história de organizações, no mundo inteiro, que causaram grande impacto, transformando a vida de um punhado de gente.
Um conceito que Paulo Lima, da Revista Trip, vinha batendo com o Prêmio Trip Transformadores.


A idéia, tanto do Colibri quanto do Quem se Importa, é funcionar como uma plataforma que inspire as pessoas a serem transformadoras, potencializando a capacidade de cada um de influir na relação com sua comunidade.  E, claro, melhorando a vida de nós todos.


Bom que a coisa anda se alastrando.  Cada vez mais a gente anda vendo gente e projetos inspirados na idéia de fazer nossa pas-sagem aqui ter valido mais a pena.


[1]  São Paulo foi dia 14/04 e no Rio, dia 20/04/2012


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Movimento Colibri




Quem me aplicou foi Michelle Hauteville, irmã da Mariana Berutto[1], filha da Lina, do Conexão Paris[2].  A  ideia é baseada na historinha do beija-flor, querendo apagar o incêndio  Neguinho desistimulando e ele, continuando:
-  Tô fazendo minha parte!


Tudo bem.  A história é meio manjada.  Mas nos últimos anos, uma onda atravessa a sociedade sem que ela mesmo se dê conta.  Uma renca de neguinho, no mundo todo, começa a pensar, agir, criar, compartilhar, enfim, viver de forma diferente. Mais que se fazer carreira, o propósito é se realizar. É se preocupar com os outros, com a natureza, preocupar-se em melhorar a sociedade através da não violência, pensando no mundo como um todo e não como um quebra cabeça esfacelado.  Gente que ama as culturas e os intercâmbios, que quer tomar todo o tempo do mundo pra viver e não gostam da idéia de sacrificar suas famílias, sua saúde, para ganhar a vida a qualquer preço. Preferem olhar os problemas como uma ocasião de compreender e criar o novo, sabendo que para transformar a sociedade será necessário derrubar alguns obstáculos e aprender a trabalhar juntos.  Querem uma sociedade onde o feminino e o masculino se equilibram, que o dinheiro pode voltar a ter seu papel de trocar nossas riquezas, mais que uma forma de poder e de dominação. 


Essas pessoas são como você e eu, nada os distingue, à primeira vista. Alguns chamam-se "beija-flor".  Em alguns lugares, estes beija-flores se unem e desenvolvem soluções criativas, inventando novas maneiras de viver juntos, para se comunicar uns com os outros, alimentar, construir ou transformar vilas e cidades, produzir energia sem esgotar os recursos de troca, e fazer negócios sem explorar ninguém, sem comprometer a integridade, liberdade ou dignidade dos outros.  Oferecem uma grande atenção às crianças, tentam educá-las sem violência, em relação a quem eles são, suas emoções, talentos, experimentar outras formas de tomar decisões coletivamente, sem parar de trabalhar para viver.  Para eles, é melhor prosperar em atividades que fazem sentido para eles e para a comunidade em que eles crescem.


Nada pretensioso, preocupado em mudar o mundo.  Só partindo de pequenas mudanças.  Olhe bem ao seu redor.  É possível que você reconheça gente com este espírito ou que se reconheça nesta descrição.  


Talvez você já seja um deles...




[1]  E minha também.  As duas, diga-se de passagem...


[2]  O melhor blog/site com dicas de Paris. Mesmo se você já conhecer (ou Paris ou o blog), vale a pena voltar.



sábado, 21 de abril de 2012

Meus chefes


Tive 5 chefes na vida que meio que forjaram minha história.  Talvez, olhando minha carteira de trabalho, eu tenha tido mais que cinco.  Mas estes foram responsáveis por me ensinar que valia a pena correr riscos[1].

Primeiro foi Almir.  Era colega meu de faculdade e me elegeu, a mim e ao Bictor[2] Lemelle, como estagiários.  Almir dava total autonomia pra gente durante a semana e nos reunia, no sábado, pra “sessão de esporro”.  Ali ele fazia as correções de rota e eu aprendia o sentido da metodologia.

Depois foi Alberico.  Reuniu uma horda de meninos e nos ensinou ousadia.  Era um troço tão endêmico, o atrevimento, que as relações que compartilhei nesta época permanecem comigo até hoje, passados mais de 35 anos.  Foi com Alberico que eu fiz minha primeira cagada profissional, quando ele me designou, incógnito, pra fazer uma auditoria de opinião em Governador Valadares.  Um dia depois da minha chegada, Oswaldo Alcântara tratou meu assunto em matéria de primeira página no Diário do Rio Doce. 
Incógnito...  Sei!

Dali, veio Emerson, que chamava a gente pra compartilhar de um sonho.  Qualquer pessoa sensata diria que era delírio.  Mas, pra gente, o sonho era tão concreto quanto um prato de comida..
Vamos pra França?  Fazer o que, professor?  Não sei.  Morar onde, professor?  Não sei.  Ganhar quanto, professor?  Não sei.  Estudar o que, professor?  O que você quiser.
Bora conquistar esta França.  E logo...
Era pra eu ter estudado Controle de Gestão.  Enlouqueci com Educação de Adultos e Gestão Social.

O próximo desafio foi com Fabiano.  A gente tinha que modernizar uma estrutura familiar centenária.  E mudar remando contra a correnteza.  Tinha que fazer a mudança mas era como se a gente não fosse bem vindo ali.  Foi o primeiro plano de marketing consistente que eu fiz e, durante quatro anos, cuidei pra fazer dele um projeto rotineiro na organização.  Trabalho de formiguinha...

De Camilo eu ouvi uma das frases mais importantes da minha vida, que efetivamente refletiam o projeto em que nos metemos:
-  Gordinho, a gente só vai brigar se você errar duas vezes do mesmo jeito.
E lá fomos nós, ombro a ombro, ele, Massara e eu, comprar uma briga com uma estrutura pra lá de arcaica.

Até hoje eu tenho vontade de mandar meu currículo pra esses caras.  Sou muito grato a eles e acho que foi por causa da relação que tive que eu fui crescendo. Com eles, eu topo comprar qualquer briga, independente da organização onde a gente estiver.  Acho mesmo que foram eles que me ensinaram a conviver com o pânico que o câncer trazia com ele, quando chegou.  Mas aí, eu já tinha aprendido a me relacionar com o perigo e a reagir a ele.

Isto ficou uma coisa tão forte em mim que um deles, acho que Camilo, adorava pegar no meu pé, dizendo que eu era de patota.  Mas acho que era mesmo.  Aprendi que a única coisa que vale a pena na vida é sonhar e correr risco com as pessoas que compartilham projetos com a gente.

[1]  É possível até que isto não seja lá tão elogioso pra eles, coitados...

[2]  Desculpe pela grafia.  É que ele agora mora no Pais Basco e esqueceu como se fala a letra V.  
  

Acione a versão em português, se você preferir.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Da teoria à prática



É mais uma inventação do povo do Ale Mello, meu irmão lá de Guarulhos.  Alê foi o primeiro cara a me contactar fora do circuito familiar.  A partir daí, apesar de a gente nunca ter se visto, virou um cara importante pra mim, sempre me mandando dicas sobre o processo de diálise, dicas sobre como conviver melhor com a questão, dicas sobre como fazer esse drama que o povo acha que a diálise é em uma coisa mais palatável e corriqueira.


Agora a CINE-HDC – RenalClass, o grupo onde ele é o gerente de marketing, está lançando a I Jornada Integrada de Qualidade em Hemodiálise:  da teoria à prática.    O evento é aberto aos profis-sionais de saúde, médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e todos aqueles interessados no tratamento de hemodiálise, o evento abordará temas relevantes sobre o assunto, com a presença de profissionais especializados, do Brasil e do exterior. Vão discutir qualidade de vida, nutrição, atividade física e todo tipo de abordagem multidisciplinar envolvendo a doença renal crônica.


Palestantes do mundo inteiro só focados  nas singularidades da hemodiálise.  São dois dias com o pau quebrando.  Uma programação intensa de fazer gosto.


Lembrei da Tainá, filha da Juny, que formou em enfermagem, fez sua pós em nefrologia e tá querendo se especializar cada vez mais em hemodiálise.  Vai lá, fia, porque, de repente eu caio na sua mão e quero você bem competente.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mentiroso



Já falei aqui, algumas vezes, do orgulho com o qual carrego a pecha de mentiroso contumaz.  Acima de tudo, eu gosto mesmo é de contar histórias.  E acontece com frequência que no desenrolar (da história), eu fico meio que possuído por um cavalo que assume o rumo da prosa pra onde melhor lhe apraz.
                  
Com freqüência, a versão final foge um pouco[1]  do compromisso com a verdade, o que não deixa de, só por isto, ficar interessante.  Acostumei (a mim e a quem eu conto) a considerar como muito mais rico e importante a história do que só, miseravelmente, a verdade, pura e simples.
                 
Cris da Ciça me trouxe esta foto do Meu Sítio.  Ela cabe em qualquer história que eu quiser rechear na cabeça do Tomás.
Cabe em história de terror, pouco antes da bruxa aparecer.  Cabe em história ecológica, onde o saci pererê escolheu pra morar.  Cabe em história de esperança, pra contar histórias pra suas pessoas amadas.


Legal que Tomás com seus quatro anos, já desenvolveu a complacência necessária pra minha compulsão de mentiroso.
Quando eu engato uma história improvável (mas nem por isto mentirosa, pura e simplesmente), ele ri pra mim e fala:
-  Brincadeira, né, vô?
E dana, ele mesmo, a repetir a história, morrendo de rir, me citando como testemunha.


[1] Às vezes, muito...



terça-feira, 10 de abril de 2012

Ninho novo

   
Passei uma semana santa de rei.  Renascimento mesmo.  Lembra de uma vez que Inezinha, do Clube dos Velhos Amigos, descreveu a Síndrome do Ninho Vazio?  Pois é... 
Lá fui eu, visitar a casa da Lisa, a minha do meio, no Rio.
               
O passeio, o renascimento, me fez lembrar uma outra história que já contei aqui, do pai da Rijane .  Dizia ele, vendo as filhas tomarem suas decisões:  
-  Eu só ensinei elas a voar.  O vôo delas não me pertence.
                   
Ao mesmo tempo que eu fico com o coração apertado de saudade, fico no maior orgulho do rumo que os meninos estão dando a suas vidas.  Lisa já me passou um susto danado quando optou por largar um emprego onde estava sendo regiamente remunerada mas fazendo um trabalhinho medíocre, no entender dela, que me dizia que não tinha desafio nenhum.  Eu só replicava, dizia ela, encerrando a prosa.
                  
Decidiu focar sua vida em planejamento de comunicação.  Hoje está morando onde sempre quis, fazendo o que sempre quis, numa organização com os valores essenciais que sempre buscou pra si.  Divide com uma amiga um apartamento lindo, espaçoso, claro, numa rua cheia de árvores, a dois quarteirões das praias mais bonitas que ela almejou.
              
Acho que renascimento é isto.  É você ver, desdobrando em quem você ama, a busca da felicidade.
                
Não tinha jeito de eu ter tido uma Páscoa, no sentido cristão mesmo, mais bonita e perfeita.
  
  

terça-feira, 3 de abril de 2012

Compulsivo



Não sei com você.  Mas comigo é batata.
É só falar que eu não posso que garra uma vontade louca de transgredir.  É incontrolável.

Foi assim comigo, quando eu soube que não podia beber água.  Ou, pelo menos, foi isto que eu ouvi quando Xande, meu personal urologist, me falou que eu teria que controlar a ingestão de líquido.  E o resultado é que entre uma diálise e outra lá ia eu perder de 4 pra 5 kilos [1].  Já teve vez que eu tinha que fazer uma sessão suplementar, e tudo tendo a sensação  de ter bebido menos água que um camelo atravessando o Sahara[2].

Meu ganho foi aparecendo devagarzinho.  Primeiro, descobri que o gelo me permitia não querer água.  Mas aí andava pra todo lado com uma garrafa pet de água congelada.  Depois, congelava fruta, que foi uma das melhores sacadas.  Colocava fruta no congelador e depois ia comendo, quando a sede apertava.  O povo aqui de casa, óbvio, não tinha a menor paciência porque o congelador da geladeira  parecia o Mercado Central [3].
Depois até consegui mudar o tamanho das pedras de gelo da geladeira aqui de casa.  É que quando eu colocava aqueles cacetes de cubos, já ia minha cota quase toda.

Agora a coisa anda mais suave.  Estou convivendo melhor com minha sede, como se eu tivesse conquistado uma serenidade zen.
Não preciso de viver olhando pra um gelo.  Não preciso ter gelo à mão.  Não preciso de colocar um megacubo pra controlar minha sede.  A coisa simplesmente ficou mais fácil.  Conquista mesmo.

Baixei meu ganho interdialítico pra 1.800 a 2.000 e teve uma vez que eu cheguei com uns miseráveis 350 mililitros.  Quer dizer, umas gotinhas de nada...

Diz ZéAugusto, meu personal nephrologist, que o coração agradece.  Um dia ele acaba enlouquecendo, com esta variação tão grande de peso, três vezes por semana.  E enlouquece mesmo, tadinho.  Em apenas quatro horas de diferença, ele bombeia san-gue pra um corpitcho 4 a 5 kilos mais magro...

Ando adorando meu desempenho.  Mais que isto, adorando minha serenidade.


[1] Leia-se litros dando sopa pelo corpo afora...

[2] Legítima, diga-se de passagem.

[3] Aliás, coloca “sorveteria” no quadrinho de pesquisa dest’A Saga pra você ver...



Você começa a entender meu problema no 3:20.  
O clímax mesmo acontece por volta do 4:00.
Mas, se eu fosse você, via o vídeo todo e seguia a série.
 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tia Alaíde



Aqui em casa, a gente é gregário.  Absurdamente gregário.  Deve ter a ver com o fato de pai ter tido não sei quantos irmãos, mamãe ter tido não sei quantos irmãos e nós lá em casa sermos não sei quantos irmãos.

Não sei mesmo.  O número parece meu peso.  A vida inteira aumentava e diminuía.  Décio é irmão do papai, Beto Preto e Luzia são meus irmãos.  Biá é irmão do Fernando.  Eu virei irmão do Celsinho.  Cuca é filho do Tio José.  Regina é filha da Tia Loló.  Sempre foi assim.  Uma família imensa e gregária.  Um caldeirão onde todo mundo é ligado com todo mundo.

Por causa disto, a gente sempre se acostumou a cuidar da roupa, porque ela ia passar pra um mais novo, a deitar no colchonete porque ia dormir alguém conosco, a colocar um prato a mais na mesa, a compartir tudo, já que a gente recebia tudo.  É possível que tenha sido por necessidade, eu nem sei, mas o que me ficou foi a intenção de fazer o outro feliz.  Era vontade mesmo, de estar em comunhão.  Não tenho registro, na minha vida, de ter visto ninguém na família rico nem pobre.  Lembro só de gente feliz.  Na mesma hora que tinha um bravo, tinha um morrendo de rir.  Quando alguém chorava, aparecia um tanto de ombro, consolando.  Ali cabia tudo e todos.

Neste bolo, tinha tio Zé e tia Alaíde, que eram meus padrinhos.  Papai me contava que me devia 3.500,00 (que ninguém lembrava da moeda vigente.  Deve ter sido por volta de 1955) quando ele precisou vender uma bezerra que eu havia ganho de presente no batizado. Papai ria e eu também, achando que estava bem empregado. 

Betinho, meu personal acupunturist, filho do Betinho, escreveu ontem sobre Tia Alaíde:
Vovó já era vózinha desde que eu nasci. Sempre me chamou de "belezinha" e também às minhas irmãs e também aos primos. Dizem que na juventude tocara bandolim, mas eu nunca vi - e que também era brava, mas também nunca vi...  Estava sempre assistindo futebol, mas gostava mesmo era de tricô. Viajou para o exterior algumas vezes, mas gostava mesmo era de Virginópolis. Era tranquila e calma, mas se agitava para agradar as visitas. Foi a fiel companheira de meu avô por mais de 60 anos em vida e mais outros tantos em saudade. Aos 96 anos, esta tarde Vovó resolveu por fim ir ao seu encontro. Deixa filhos, netos e bisnetos saudosos.

Este sentimento seu é de nós todos, Betinho.  Acho que Zé Cantídio deve estar namorando até rachar os bico lá em cima.

quarta-feira, 21 de março de 2012

St. Patrick's em Dublin


Tem algum tempo que eu comecei a juntar meu segundo milhão de euros.  É que o primeiro estava muito difícil e eu, ligando cada vez menos pra dinheiro, resolvi começar o segundo.  Mas daqui a pouco.  Por enquanto, ando ligando nada pra dinheiro.  Tanto que dobrei o número de correspondentes internacionais dest’A Saga e mandei Rodrigo, meu filho, fazer a cobertura do Saint Patrick’s direto de Dublin.  Ele só aceitou porque levou, no pacote, esta leprechaunzinha de chapelão aí da foto.  Olha o relato do menino: 

“O dia 17 de março é considerado o dia de São Patrício. De acordo com a lenda, São Patrício foi o responsável em levar o Cristianismo para a Irlanda entre os séculos 3 e 4 (obrigado, Wikipedia!) e, portanto muito festejado naquele país em que os cristãos repre-sentam mais de 90% da população. Assim como o nosso carnaval, o dia 17 de março começou com uma celebração cristã e descambou para a libertinagem!

Coisa linda!

Pessoas nas ruas vestidas de verde, com chapéus de duende (Leprechaun) e trevos de três folhas por todo o lado (o que antes representava a santíssima trindade passou a ser a origem da obsessão pela cor verde!).
E cerveja... muita cerveja (Guinness, sempre...)!


Bom, St. Patrick’s Day, em resumo é isso. O que eu não sabia é que toda essa folia ocorria em apenas um dia. Quando comprei minha passagem para Dublin , achei uma pechincha a passagem na tarde de sábado do dia 17 de março. Senti-me a pessoa mais sortuda do mundo e comprei prontamente a minha e a da Carol, sem nem pensar. Para mim era lógico que o festival, assim como anunciado pelo site oficial, ocorreria até o feriado de segunda-feira, dia 19.

Quanta inocência! Apesar do clima de festa e adoração ao verde, à cerveja, e à cultura irlandesa, a festividade se concentra mesmo no dia 17... e só! É um grande carnaval de rua, daqueles de Diamantina e Ouro Preto, com desfiles e bandas ao vivo para todo lado... Lindo! Mas um dia só... Quanto desperdício...


De qualquer maneira, conseguimos aproveitar esse pouco de festa com o povo mais amigável do mundo, como se autointitulam os irlandeses. O que em minha opinião é a maior verdade, pois apesar da alta concentração alcoólica em um público estimado de 500 mil pessoas, eu não percebi o menor sinal de briga ou confusão. Quem dera fosse assim no nosso carnaval...
Em geral, é uma festa muito bacana, com muita gente esquisita, trevos, duendes, Guinness, rugby, música celta e alegria...  A genuína festa do momo Leprechaun ali, na nossa frente! Inesquecí-vel... mas da próxima vez, chegaremos um dia antes!”

Nos créditos, Digo fala que as fotos são da Carol Hauck, a tal leprechaun que aparece na abertura do post, bem na frente do Temple Bar, o mais famoso de Dublin.  Na verdade eu não tenho idéia como se pode bater a foto e aparecer nela.
Deve ser coisa de leprechaun!



ps:  A Carol do Digo aparece no 3:49, no meio da fila, tocando clarineta.  Depois, chapado o melão, ninguém mais sabia da moça, tadinha...




quarta-feira, 14 de março de 2012

Surpresa!



Já fazem quase dois anos quando eu me dei conta de uma série de ganhos que a doença busca pela cura[1] havia me proporcionado.  Uma das coisas que eu mais achava legal era não mais precisar chegar em casa em desabalada carreira, com o xixi já ameaçando descer pelas pernas abaixo, eu ainda no elevador.

Valente, contido, têm se manifestado não mais que 3 vezes por dia.  Quando eu acordo, depois do almoço e quase na hora de deitar.  Sendo que eu fico com o direito de negociar com ele, às vezes um pouquinho mais pra cá, às vezes um pouquinho mais pra lá.  Mas nunca muito fora desse padrão.

Ontem fui almoçar na mamãe.  Ficamos de trelelê um tempão.  Esqueci da vida.  E voltei pra casa de ônibus que, por sorte, mesmo no meio da greve, não demoraram a aparecer.

Mas não é que, a dois quarteirões de casa, bateu aquela vontade incontrolável.  Meio desacostumado, nem me apavorei.  Tentei não pensar em cachoeira, em chuva, em torneira aberta.  Vai dar, pensei, quase arrogante.  E a cada passo a situação ia piorando.  Foi só abrir o portão do prédio, senti um calorzinho desconfortante nas pernas.  Quando entrei no elevador, ainda bem que sozinho, a risca na calça mostrava, indiscutivelmente, a volta aos velhos tempos.   Não dera pra chegar em casa.

Pois é.  Veja você o que são as referências.  Pra quem vive dizendo que quase não faz xixi, eu fiquei foi todo orgulhoso com o desempenho do Valente.  Mijado, mas todo orgulhoso...






[1]  A dica é da Toninha.  O câncer já ficou lá pra trás.  Doença, diz ela, é palavra proibida.  Agora, o que anda me instigando é a consolidação da cura.

domingo, 11 de março de 2012

Negociação


Tomás estava no bagaço.  Além do Clic a tarde toda, no dia dele tinha que caber judô, natação, brincadeira, contar tudo pra Carol, ...  Faltava hora pra tanta atividade.  De vez em quando Diogo deixa ele com a gente, no final da tarde e aí lá vou eu, ou a Ciça[1], colocar o menino no banho pra dar o jantar.

Naquele dia, eu quem ia dar o banho.  Só que Tomás resolvera engrossar.  Mesmo exausto, queria, a todo custo, andar de bicicleta lá embaixo.  E cadê que eu conseguia mostrar que ele estava cansado.  Ameacei uma negociação e fui duro com ele:
-  Tá legal.  Nós vamos descer com a bicicleta só 15 minutos e aí você entra no banho sem reclamar de nada.  De nada!  Fui claro?
Acostumado a regatear, Tomás não estava disposto a vender barato sua vontade.  E falou pra mim, irredutível:
-  Não, vô.  ONZE!
Demorei um pouquinho pra me dar conta do mal entendido e finquei pé, pra fazer um cinema:
-  QUINZE, Tomás!
E ele, jogou no tudo ou nada:
-  ONZE, vô!
-  Tá bom.  Mas você entra no banho sem reclamar!

Negócio fechado...

Falei que eu ia marcar onze minutos no despertador do celular.  Mas nem precisou.  Passados uns cinco minutos, Tomás me pergunta se já tinha acabado o tempo.  Falei que estava quase e a gente logo subiu.

Tomás foi pro banho com um sorriso de vitorioso, mas nem jantou.  Foi só escovar os dentes e o olhinho dele já quase fechava, de sono.  Dormiu nos meus braços, direto do banheiro pra cama, enquanto o pai não chegava.

Fico pensando se isto se encaixa na negociação que o povo de gestão tanto chama de ganha-ganha...

http://youtu.be/B064YfdTpMw


[1] Claro que usualmente muito mais a Ciça do que eu...