domingo, 19 de junho de 2011

Edição Extraordinária 74 - Bença

                            Papai, mamãe e a Pinha

Bacana, deu uma saudade, esta história de 90 anos do papai, que você não faz idéia...
Papai morreu numa data imprecisa, entre julho de 77 e junho de 79, quando eu estava na França.

Quer dizer, morreu mesmo em dezembro de 70.  Mas eu nem me dei conta.  Continuava conversando com ele pra toda decisão importante que eu precisava tomar na vida.  Conversava com ele sobre que curso eu devia fazer, conversava sobre a mulher que eu havia escolhido, sobre o primeiro apartamento que Paulão e eu empreendemos, sobre ir pra França ...  Tudo.

Papai me ouvia calado, sorrindo, ouvindo meus argumentos e me fazia repetir tudo, à exaustão, até que as coisas clareavam na minha cabeça.  Neste momento, ele acenava e me fazia entender que era hora de ir embora.

Teve um dia, na França, quando eu passava pelo quarto do Diogo vindo do banheiro pro meu quarto, que me ocorreu que Papai não havia visto eu formar, não havia visto eu casar, não havia visto eu ser convidado pra trabalhar na Vale, não havia visto eu ganhar a bolsa pra estudar na França, não havia visto o primeiro neto dele nascer ...

Bacana, você não faz idéia.  Mas eu caí num choro convulsivo que deixou Gêisa apavorada.  Deu o quê, neste menino?, deve ter pensado ela...
Foi ali, naquele momento, que Papai morreu.  Ou, é possível também, que ele me fez entender que eu estava pronto pra caminhar sozinho.  Deve ter dado um adeuzinho maroto e foi embora.

Mas, como diria Tomás, pronto nada.

Deve ser por isto que eu me emociono tanto quando encontro com os amigos dele, quando escuto o trombone de vara que ele tocava na banda de Guanhães ou quando assovio as músicas que aprendi a assoviar, pensando nele.

Bacana, que saudade ...


24 comentários:

Anônimo disse...

Te admiro, todo dia, cada vez mais, Paulinho. Te leio, te acompanho, torço à distancia por sua alegria contagiante e forte! lindo isso e tudo o mais que vc vivencia e divide, humildemente, conosco. Obrigada!

PC disse...

E eu aqui, me roendo de curiosidade, querendo saber quem é você, Anônima.
Beijos

ac disse...

seu blog me faz tanto bem!!!

PC disse...

AC, minha linda, fui lá no refazimento.
Qualquer dia a gente fala sobre o meu jardim.
Beijos

Katinha disse...

O mais legal nisso tudo, eu penso que foram nessas conversas que você tenha exercitado o gosto de ser pai, também.
Lindo texto, lindo você! Beijos.

PC disse...

Eu sou só f@dinha, Katinha.
F@da mesmo era meu pai.
Beijo.

ps: Mas acho mesmo que foi com ele que eu aprendi a gostar do ofício de ser pai.

fabiazita disse...

já me peguei várias vezes com este pensamento de quantas coisas importantes já vivi (e vou viver) sem a companhia do meu pai. ele, que tinha pouco mais do que a formação de primário, me vendo doutorando na usp e professora na ufmg. viajando o mundo. casada, agora lhe dando um neto. dá um aperto danado no coração. mas fica também um orgulho imenso do que ele deixou em mim e que me fazem quem sou... do que tem dele em cada realização minha e que o deixariam um pai orgulhoso.

a primeira experiência de morte que vivi foi a perda dele. e peixe grande é um filme que acaba comigo porque seu velório foi tb uma celebração de vida - e que me fez entender exatamente quem ele era. me mostrou, aos 15 anos, tudo o que realmente importava sobre seus valores e como viver bem uma vida.

naquele dia e até hoje, sempre que encontro seus amigos, não há choro nem desespero, mas um carinho e estima tão grandes que ninguém resiste a contar um caso engraçado, uma situação em que ele fez mais pelo outro do que podia, seus modos nada ortodoxos de ver e estar no mundo... enfim, coisas que me fazem transbordar de orgulho e inspiração.

por isso, compartilho com você desta saudade que é dor e alegria. porque é ela que dá forças pra gente seguir em frente honrando essa memória e tentando construir uma história tão bacana quanto daqueles caras que sempre vão iluminar nossos caminhos.

PC disse...

Zita, quando Peixe Grande saiu, no dia do meu aniversário pedi que os meninos, de presente, assistissem ao filme.
Maria Elisa, mau humorada, falou.
- Pai. Eu já assisti. E fiquei o filme todo falando: Ai, Paulo César, ai Paulo César!

Anderson D. Meira disse...

Hj, como todos os dias, pedi a benção ao meu pai (que já se foi), mas fiz questão de apresentá-lo a um professor meu que, em breve passagem por Viçosa/MG correu o risco de tomar um "cascudo" quando me sacaneou no meio da turma por um atraso de 5 minutos... logo eu, o CDF do time! Mesmo com meu mau humor crônico, o mestre tirou de letra, como sempre!!!! Sua alegria é contagiante Dr Paulinho... seu velho deve ter o maior orgulho do gordinho dele! Abração!

Anônimo disse...

Ah, Paulinho... você é demais...
Beijo da Ethel

Anônimo disse...

Ele continua como meu conselheiro. É muito lembrado lá em casa, principalmente aos domingos quando o samba amanhece solto, e rola até um rasta-pé, mesmo que estejamos só Toninho e eu. Dá uma saudade enorme... É aí que está o sentido de eternidade

Acho que escolher um músico pra ser meu companheiro tem a mãozinha dele.

Bjs

Régi

Ps: Essa música não me deixa ficar parada nunca. Qualquer um fica "Assanhado" com ela.

PC disse...

Beijo, Anderson.
Nunca tive tanto medo na vida, igual naquele dia.
Também, depois apaixonei.

PC disse...

Beijo, bruxinha.

PC disse...

Samba mesmo, Régi.
E beija Toninho

Flávia Coelho disse...

Hj não dá p/ escrever muito, só sentir saudade...... e que saudade..... Esse post foi de fu..... Bj gde

PC disse...

Beijo, Flávia Coelho

Maria Elisa disse...

Ficou bonitinho mesmo, este post, pai. Cê tá ficando bom nesse tal de blog (favor não se achar. grata)! Mas até eu que não conheci O cara, fiquei com saudade...

bjo

Lisa

erika coelho disse...

Copiando a Flavinha. "Esse foi de fu... Você é demais Cesão. Não me canso de dizer isso. Beijos

Renata Feldman disse...

Você me fez chorar, PC.
Linda emoção pra fechar o dia.
Beijos

PC disse...

Vamos fazer logo um acordo de cooperação, Renata.
Vou no seu blog, fico emocionado.
Você vem cá, e ficamos empatados.
Beijos

PC disse...

O duro, Lisa, é quando eu penso que ele não te conheceu.
Por isto que eu choro à toa.
Beijos

PC disse...

Sábado, se tiver casamento na roça, eu caso com você, Tia Érika.

Nando disse...

Eu até hoje peço a ELE ajuda e orientação nas minhas decisões. Não estar de corpo presente, para mim, não significa que ele tenha nos deixado.Beijos
Nando

PC disse...

Deixou quem, filho ingrato.
Beijos nandão