quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A grande ausência - 106


Fiquei o tempo todo, igual namorada adolescente, ansiando pro Paulinho aparecer na I NefroWalker da Lua Cheia.  Fazia minhas voltas, olhando de banda, doido pra ele surgir do nada, célere, com sua cadeira turbinada.
Paulinho foi o primeiro deficiente físico que eu me lembre a exigir pra si uma vida normal.  À época, como não existia esta coisa de politicamente correto, o nome era Paulinho Muleta.  Ia sempre na PUC, participar de alguma aula com nosso herói, um anjo barroco, o Romu. 

Chegando lá, era um parto.  Lá ia todo mundo, se borrando de rir, carregando Paulinho e suas muletas até o terceiro andar da Comunicação.  Um canalha, adorava sacanear a gente, pedindo pra segurar as muletas, só pra ver a gente desconfortável, carregando aquele incômodo, que a gente fingia não sentir.

Daí, como você não teve a oportunidade de conhecer esta figura, eu te apresento.  Aliás, apresento ele e a Rede Saci, que publicou este texto, que eu acho revolucionário até hoje, pra quem briga por esta história de inclusão social.
Acho um primor, a confusão que ele criou...

Memórias. Corria o ano de 1981. O general Figueiredo governava o Brasil, distribuindo coices e promessas de abertura política. A economia transitava entre o milagre e a nova crise que se desenhava. Casado havia três anos, e com a carreira de professor bem encaminhada, eu não gastava esforços com pessimismo ou queixas. Minhas energias pareciam bem distribuídas, os focos estabelecidos. Mas, quem controla a própria vida? O amanhã só tem graça por estar sempre prenhe de surpresas. "Previsível de verdade só a morte", insinua a sabedoria popular.
   
Já desisti de tentar saber a origem primeira do convite que, naquele ano distante, iria bulir com minha existência e meus interesses. Fui convidado para dar uma palestra no grande evento que marcaria aquele como o ano internacional das pessoas com deficiência, promovido pela ONU e outras entidades. O evento seria realizado no monumental, mas hoje finado, Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Aceitei por instinto, a tremedeira deixei para depois. Porque eu? De deficiente eu só tinha a longa, e bem sucedida prática (modéstia à parte). Nunca sistematizara, ou fizera teoria, sobre o que este aspecto secundário de minha vida impusera à minha consciência e à minha sensibilidade. O tema que me encomendaram era algo como "barreiras arquitetônicas" e urbanísticas com que se deparam os deficientes. A ansiedade quase que só me deixou rabiscar umas idéias gerais.
     
O tempo correu lépido e distraído. Logo eu estava lá, instalado num luxuoso apartamento com vista para a praia de São Conrado. O Centro de Convenções, no próprio hotel, parecia um aeroporto internacional ou a portaria da ONU: gente de todo tipo, línguas e roupas para qualquer gosto. De cara, fui atacado pela pulga atrás da orelha: tinha deficiente de menos naquela festança. Não estaríamos os deficientes aptos, ou preparados, para expor nossos planos e experiências? Mas logo eu descobriria que realmente não estávamos. Desde a abertura dos trabalhos, ficou claro que o clima de tutela seria preponderante, e não por malvadeza ou picaretagem dos organizadores, mas porque simplesmente não havia, naquele tempo, outro caminho. Um pensamento "dos" deficientes só foi construído daí para frente, e duramente.
   
Vi duplicada minha responsabilidade. Eu estava condenado a fazer bonito na minha apresentação, talvez pelo fato de que eram raros os deficientes palestrantes (e, no caso, eu ainda me supunha um palestrante deficiente). Eu sentia muitos olhos me examinando, por vezes curiosos. Então chegou minha hora, no segundo ou terceiro dia do Encontro. Calculei minha cara mais inteligente, enverguei a camisa nova, segurei junto à muleta a pasta com minhas anotações, e lá fui.
   
No grande auditório não havia cadeira vaga. No palco, havia uma longa mesa ornada, ainda vazia, mas com os microfones já a postos. Encostei-me perto da porta, nervos controlados, aguardando socorro da intuição. O coordenador abriu a sessão, fez algumas considerações, e, logo, passou a convocar os palestrantes que, se não me engano, seriam quatro naquela tarde. Chamou o primeiro, logo depois o segundo. Eu seria o próximo, mas um calor se antecipou em meu peito. A intuição se intrometeu, me dando a grande pista. Bingo!!! Ouvi meu nome e desloquei-me em direção ao palco. Olhei, de um lado, a escada. Caminhei até o outro extremo. Escada também. Lá de baixo, ao nível das cadeiras, dirigi-me ao coordenador e disse algo assim: "em reverência política ao ano consagrado aos deficientes, e em protesto contra a falta de adaptação de um ambiente com tal destinação, vou me recusar a ser carregado. Estou reivindicando a descida da mesa para este nível, como ato simbólico de apoio à causa e às necessidades dos deficientes físicos". Evidentemente, essa foi uma fala emocionada, e sem a clareza bem articulada que aqui se apresenta com a escora da escrita e a auto-complacência da memória.
   
Um desajeito no ar, algum constrangimento, e logo aplausos e palavras de apoio. Muitos se apresentaram para ajudar na mudança da mesa e dos equipamentos. Criara-se um clima interessante, bom para se plantar coisas novas. Senti que tinha acertado num alvo que eu ainda não conseguia distinguir. Esse gesto também ativou em mim o impulso de militância. Eu que tinha tido até então, aqui e acolá, uma persistente mas discreta militância política, pressentia que nova frente de luta se abria naquela hora. Deficientes, seus direitos, sua cidadania, tais coisas dariam estofo para boa e digna luta? Ali tive certeza que sim, e sem planejar, me dispus a ela, dentro de minhas parcas possibilidades.
  
Duvido que alguém tenha saído daquele auditório mais tocado do que eu mesmo. Usei o ocorrido como gancho, e palestrei com o coração, com uma história que eu não suspeitava contida ali dentro. Contatos, trocas de endereços, os primeiros convites para encontros e outras palestras. Topei a briga, fiz do verbo a arma, circulei e falei muito nos 15 anos que se seguiram. Durante um bom tempo o episódio da mesa que desceu vinha à tona quando me apresentavam num evento ou numa reunião. Mais recentemente, quando a saúde andava trôpega, sobreveio desânimo e ceticismo. Falar mais o quê? Para quem? Meu tempo passou, soava clara a sentença. Mas o tal veneno é perene em seu contágio. Foi a conta de abrir um pouco a guarda, com a descoberta do blog, e ele se infiltrou sem disfarces. E me deixa aqui, assim, meio menino, brigando pela atenção de cada caro leitor.
  
Fala se ele não é lindo.  Fala!?

18 comentários:

Alexandre Mello disse...

Uau!

Adriana disse...

Você venceu!
Lindo demais...

O Alexandre Mello aí de cima fez o melhor e mais apropriado comentário: "Uau".

Uau!!!

Beijos

PC disse...

Deve ter dado o maior tendepá no povo da ONU, Allê.
Acho que o conceito de políticamente correto nasceu desta saia justa que o filho da mãe do Paulinho gerou...

PC disse...

Mas não era pra ficar todo ansioso, esperando meu namorado?
O blog nasceu por causa do Paulinho, Adríola. Eu estava pensando,... e aí a Glória Gominha me mandou visitar o blog dele.
Decidi na hora!!!

MENICUCCI disse...

só que você, gordinho, ainda está na primeira fase, da descida da mesa. talvez daqui há 15 anos o blog lhe seja ainda mais útil. por ora, cajado de moisés e demais agentes bíblicos em mão, crock nesses pezinhos gorduxos e expedições pela frente......

PC disse...

Eu ia morrer de vergonha, Menicucci, se tivesse que fazer parte deste vexame.
Prefiro minha manguara e meu croc, fi.

Lucia disse...

Lindo é vc, PC, querido. Ele também. Que festa a NefroRede!!!! Que delícia a fazedura daquele caldo!!! Maravilha.
Agora que já descansei, vou dormir. Beijos muitos.

PC disse...

O mais lindo é a Rede Saci. Só projetinho bacana, menina.
Quando você estiver bem velhinha, andando de bengala, vai adorar postar na Rede.
Beijos.
Sonha comigo.

Mariza disse...

Que maravilha.....
Tá explicado, porque voce é o queridinho da mamãe.
Você sempre arrasou assim??
Não pare nunca de escrever.
É tudo muito interessante.
Beijinhos

rosana disse...

...põe esse Paulinho na roda... Cara arretado!!!! Cadê ele??? PAULINHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

PC disse...

Quem sou eu, Mariza.
Tudo que está em vermelho é do Paulinho Saturnino.
Eu sou só fã dele.
Beijos

PC disse...

Paulinho aka Monguba foi diretor da Fafich. Mas bom mesmo é o blog dele.
Vai lá.
Beijos

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Xará querido, o que fazer além de acatar a revelação pública desse namoro. E confirmar a gamação, sabendo que você nem imagina a dimensão social dessa sabedoria toda que vem espalhando. Virtualidades que caem no real como chuviscos de bálsamo. Partilhei a lua cheia daqui de longe. Não pude ir, mumunhas de uma fase meio complicada. Mas, vou voltando à forma, inclusive porque o meu longamente desfalecido blog anda precisando, quando pouco, de uma ressuscitação. Eu adoraria merecer ao menos metaade dessas coisas bonitas que você falou de mim. Beijão.

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Em tempo: não sou Monguba. Os amigos me ornaram, desde priscas eras, com a alcunha de Munguba, que vem a ser uma madeira também conhecida como "pau mole". Amigo é coisa fina, né?

PC disse...

E Luiz Márcio falando que é seu amigo...
A coisa ficou marcada com ele.
Na véspera, confirmo.
E ressurrerja (é assim mesmo, a regência?) seu blog, quando der!!!
Levo uma vara de berimba quando for. Você deixa ela exposta e, qualquer coisa, ele faz uso, igual a menininha do bambu com o Silvio Santos.
Beijo,

PC disse...

E mais: acho você melhor ainda no twitter.
Mais compatível com seu humor mordaz!!!

Mariza disse...

PC Querido,
visitei blog do Paulinho.
Fantástico.
Olha só,a esposa dele é de T.Otoni.
Que legal!! Vai ver até conhecemos.Aposto.
Filha do seu Y do seu X de fulano de tal.Hehehe!!
Fiquei lendo até altas horas.
Muito bom.
Beijinhos.

PC disse...

Devo encontrar com ele, esses dias.
Pergunto pra ela.
Se for parente do seu Anjo, que sucesso...
Cabra valente ele, né?