sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Seu Benício - 14


A UTI devia ser uma das bitelas.
Eram uns 20 boxes, mais ou menos. Box mesmo. Igual os de oficina mecânica. Uns 10 de cada lado com o corredorzão no meio.

No começo eu fiquei meio chocado. A gente não tinha um mínimo de privacidade, pensava eu, recém chegado e já querendo cagar regra. Que, diga-se de passagem, durante quase duas semanas, a única coisa que eu conseguiria cagar era regra. Mas disto, a gente fala depois.

Aí, com pouco tempo de casa, percebi que era aquela organização que garantia que a equipe de enfermagem oferecesse o melhor atendimento pra nós doentes que estávamos ali. O tempo todo a equipe de enfermagem mantinha o controle da situação. Uma olhada rápida e era fácil pra eles identificar qualquer não conformidade e intervir rápida e eficientemente.
O ruim era só que eu, com esta minha fantasia permanente de onipotência, detestava a idéia de ser vigiado o tempo todo. E o pessoal, atento, se eu mudasse o ritmo da respiração, aparecia pra checar se estava tudo bem.

Eu teria que passar 8 dias sob observação. Xande, meu urologista, já tinha me prevenido isto. Não era sinal de nenhuma gravidade. A observação era parte do procedimento.
Ponto final.
Ocorre que neste ambiente eu era o filé. O dodói da equipe. Chegava neguinho estourado de acidente, entre a vida e a morte, paciente terminal na pior, brigando por um fio de esperança, uns sobressaltos na equipe de vez em quando, ... E eu, comparado com eles, esbanjando saúde. Era ou não era um filézinho?

Logo que eu voltei da operação, fiquei com a emoção à flor da pele. Qualquer coisa me fazia chorar feito menino. Ia conversar com a Ciça, desabava a chorar. Gêisa chegava, e eu abria a mangueira. Virei a maior manteiga derretida.

E aí, justo na minha frente, ficava o seu Benício. Seu Benício era um trabalhador rural, que brigava com um câncer há mais de seis meses. Entrava, saía, ia pra casa, voltava, ... Ficava neste rame rame.
O filho dele, rosto queimado do sol do campo, vinha e ficava triste, amuado, sentado em um canto do lado da cama dele.
Todo dia.

Seu Benício já tinha a voz comprometida com uma traqueotomia que tiveram que fazer nele, por causa do câncer. Queria beber água e não podia. Pra piorar, a voz não saia. Agitado, ele batia na ferragem da cama, obrigando o pessoal a dedicar a atenção que ele não conseguia pela falta da voz.

A noite toda seu Benício batia na grade da cama. Eu acompanhava aquilo com o maior respeito. Pra mim era um jeito de Seu Benício mostrar que não entregava os pontos. E eu chorava baixinho, lembrando que Seu Benício era meu Richarlysson. O drama dele fazia o meu parecer brincadeira.

E ficava triste, solidário, imaginando se haveria, meu Deus, alguém que fosse um Richarlysson[1] para o Seu Benício?



[1] Vai lá na história 06 se você estiver se perguntando quem, ó raios, é este tal de Richarlysson.

12 comentários:

Kenji disse...

who´s Richarlysson?

Anônimo disse...

stou com vc desde a primeira historia e adorando todas. Paulinho, ouço o Beto falar de doenças, blocos cirúrgicos, CTIS todo os dias.Então quando leio seus texto, me impressiona sua delicadeza para descrever um assunto tão árido. E viva Paulinho por lembrar o nome do anestesista, da enfermagem, do paciente do lado. beijos!!! Nicinha

PC disse...

Leo,

vai tomar recuperação.
Corre na história 06 que você entende wtf is richarlysson.
Vai, porque vale a pena.

PC disse...

Nicinha,

E mais o GianCarlo, que vai aparecer daqui a umas três histórias que é amigo do Beto.

Beijos,

PC

Lucia disse...

PC: Tá filé de boi gordo do Pontal. bjs.

PC disse...

Agora em promoção, com menos gordura e menos colesterol

B disse...

Bem que eu sempre achei vc parecido com o Richarlyson mesmo...

PC disse...

Drrrrrrrrrrr...

Lucia disse...

Tem uma feira aqui que começa às 4 horas da manhã de todo domingo. O pessoal vem das fazendas ou comunidades com suas "camutiás", verduras, rapaduras leite de vaca e aves. Saindo de um baile, fomos comer pastel na feirinha. Resolvi levar um frango, que tava tão simpático de perninha cruzada e limpinho. Pedi o frango, mas a dona me olhou meio triste e disse: Não é frango não minha filha, é galinha! Só porque era mais gordinha e "erada"!!
beijos

PC disse...

Fala se este povo não é sábio?
Fala...

The Blue Girl* disse...

Faltou comentar que eu comprei a galinha, que comi como frango do mesmo jeito!!Não há diferença! E a tal de guariroba que falam que é igual palmito? e eu acreditei..depois cuspi tudo!!
bjs.
obs.: Tô atualizada com as histórias e emocionada..quisera te fazer rir, seria a lúcia mais feliz do mundo. plim plim!
Ah...essa The Blue Girl é Júlia, que deixa as coisas dela ligada aqui no computador e morro de preguiça de sair e fazer tudo de novo. Somos duas em uma, de olho em vc. Ok? bjs.
bjs.

PC disse...

Plim plim pra você também

beijosmetwitta