domingo, 4 de dezembro de 2011

Série Turismo pra gente especial 02

                   
A primeira vez que eu ouvi falar em inclusão foi com Boni Fácil.  Ele estava começando o projeto “Sociedade Inclusiva” na PUC e o conceito nem chegava a fazer sentido na minha cabeça.  O engraçado é que tudo do tema “includente”, até então, me parecia uma bobagem sem limite.  No máximo, conversa de politicamente correto.
                  
Aí, começaram a aparecer minhas limitações...  Devagarzinho, eu comecei a ver os entraves presentes no dia-a-dia das pessoas com necessidades especiais.
                    
Foi quando eu saí do hospital que eu aprendi que o mundo não estava adaptado para minhas necessidades especiais.  Qualquer trajeto que me afastasse mais de 50 metros do caminho entre minha casa e a hemodiálise me deixava apavorado. 
             
A primeira saída minha foi para ver uma exposição de arte.  Na entrada, uma subidinha boba.  Falei:  vamos lá.
Cadê?  Não consegui dar o quarto passo.  Quase desmaiei.
               
Minha hemoglobina baixa me fazia ver paredões intransponíveis onde vocês só enxergavam um aclive suave.  Os quatro degraus pra chegar aqui em casa pareciam os morros de Machu Pitchu.  Ir até o supermercado, na esquina da Afonso Pena, era como subir cada um dos 511 degraus da escadaria que leva à Capela de Nossa Senhora do Patrocínio, a maiorescadaria de igreja do mundo.  Era um desafio atrás do outro...
                  
Foi aí que eu enxerguei que haviam, sempre, três tipos de turista em viagem.  O primeiro, que encaixando igual luva no meu caso, que sofre de CPO (c@g@ço pós operatório).  Eu fiquei quase um ano neste estágio.  Só consegui sair dele quando viajei pra Resende, no casamento do Dão. 
          
O segundo, o CDL (conhecedor dos limites) que é o seu Zé Rodrigues, lá do Núcleo.  Seu Zé não perdeu nenhum NefroWalker.  Viaja logo depois da hemo e volta a tempo da próxima sessão.  Já foi pra São Paulo e volta no outro dia.  Já foi pro Rio, passeou na praia e voltou.  Pega um trem, sai de manhã, almoça na cidade e volta de noite.  Faz melhor que eu, que ficava em casa, com medo de sair.  Mas é tora, até você conhecer os limites direito.  Eu errei, indo pra Valadares, planejando a volta no limite.  Mas, conforme Murphy havia previsto, a Trip cancelou o vôo de volta e eu fiquei na tábua da beirada...  Mas aprendi!
Agora, eu prefiro fazer a hemo no destino turístico, pra não passar susto igual.
                         
E o terceiro, o LLS (livre, leve e solto), igual Laurinha, da Cadeira Voadora, que, aliás, começou também uma série Cadeirante também é turista hoje.  Laurinha não tem o menor medo de dar errado.  Preserva a saúde ao extremo e, tirando isto, chuta o balde. 
Mas e se der errado?  Paciência.  Ficar vendo televisão ia ser pior.
Com isto, ela viaja mundo afora, inclusive de catamarã.  Morro de dó do pessoal da casa dela, que deve ficar com o c(*)oração na mão, com esta menina.  Ando louco pra chegar neste estágio, pra poder ir a Paris.
                  
Cadeirante, dialítico ou com qualquer outra necessidade especial:  em qual dos estágios você se enquadra?


7 comentários:

Leo disse...

um conhecido meu, o "montanha", graduou em comunicação social pela UFMG e hoje trabalha na prefeitura.

ele é cego.

ele conta que quando resolveram revitalizar o hipercentro, que nenhuma das novas obras levou em consideração os cegos. Parece não haver nas áreas revitalizadas um quarteirão sequer sem obstáculos de uma ponta a outra.

BH está a anos luz de ser uma cidade acessível, para diversos tipos de necessidades especiais. É nossa cidadania que engatinha.

PC disse...

É isto que me incomoda, Léo.
Enquanto a gente não ficar cego, não se dá conta que existe esta necessidade.
Mostra o blog pra ele e que ele entre em contato comigo e com Laurinha.

ps: Ando sentindo sua falta nos comentários, rapá...

Leo disse...

é que a vida tá corrida! ;-) mas tá indo bem. As coisas tem andado de acordo, coisas boas têm acontecido e já até comprei gaitas novas!

vou dar o toque nele. Ler web para ele é bem mais complicado (ele usa uns softwares próprios que lêem o conteúdo web, e isso demora). Até para isso tem desafios...

agora, no longo prazo, a gente sabe que a antiga pirâmide etária já virou um retângulo, então é só uma questão de algumas décadas (!) para que haja uma quantidade suficiente de gente velha e com necessidades esperando por acessibilidade, respeito, opções, lazer, etc, e com representatividade política.

minha avó japonesa, quando tinha saúde para sair de casa (ela viveu até 101 anos, saía de casa até os 80), participava de um clube para idosos nipônicos no interior de SP onde havia translado de ônibus de viagem para atividades desde turismo até esportes (que eles davam conta, claro).

puxa, isto tem 20 anos. Como podemos ainda estarmos tão atrasados?

Laura Martins disse...

Oi, Paulinho, sou sua fã! Vc tem uma percepção muita fina da vida...

Olha só: acho que todos nós, que temos alguma necessidade especial, sofremos de c@g@ço vez ou outra... pós-operatório, pós-qualquer-coisa...

Eu também tenho medo, dependendo das circunstâncias. Mas é que o medo não me paralisa: me faz mais prudente. Examino os destinos à exaustão antes de levantar a âncora; chego a ser obstinada. Mesmo assim, algumas coisas furam, é óbvio. E outras são bem mais tranquilas do que eu esperava...

Diante deste seu post, me deu uma vontade de te fazer uma homenagem. Me aguarde! Vai rolar um post diferente em meu blog, dialogando com este seu. Te aviso quando postar!

Ah! Adorei a estratégia do seu Zé Rodrigues... Cada um acha seu jeito, né?

Mil beijos

PC disse...

Seu Zé é o verdadeiro fogo no rabo, Laurinha. Descobriu que deficiente físico tem direito a cadeira em ônibus interestadual, grátis, e não pára um minuto.
Ainda vou fazer um post sobre isto.

Márcia disse...

Tenho sentido uma dificuldade grande com os desníveis nas calçadas.Uma pequena pisada em falso, é uma dor que sem querer sai um "nomaço" daqueles bem feios.Azar de quem está passando perto de mim naquela hora e escuta o que não queria.

PC disse...

Passeio é a especialidade do Marcelo Xavier, Márcia.
Ele tem dificuldades com a cadeira de roda elétrica.
Taique cruza rua com a mão na minha cintura, achando que meu bambolear imitando tiCarlos não vai conseguir chegar ao próximo quarteirão.