segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Meu pior inimigo - 32



O dia prometia.

Depois da experiência desastrosa com a ambulância, eu amanheci azedo de fazer dó...

Ficou marcado que eu seria pego 10:30 pra ser levado na hemodiálise. Eu tinha acordado cedinho e desde 10 e já estava pronto pra sair. Já eram 10:40 e ninguém aparecia. Toda paciência e carinho, Gêisa tentava me acalmar. E eu lá, destilando veneno e soltando fogo pelas ventas, em pé, na porta, esperando a cadeira de rodas... Que não vinha.

Apoiado nas paredes do corredor, fui até a recepção do andar pra reclamar. Sem nem levantar os olhos, a moça disse que estava marcado pra 11:00. E nem me deu mais atenção.
Quando deu quase meio dia, chegam os caras. Eu bufando, destilando fel, como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo.

Na hora de eu passar da cadeira de rodas para a maca, deu um problema qualquer e acabei caindo no chão. Sem maiores danos. A não ser para minha moral que, de tão escoriada, continuou lá embaixo, mesmo quando eles me levantaram.

Tudo certo na hemodiálise mas fiquei amargando o dia inteiro. Nada me fazia ficar em paz. Aquela raiva chegava a me embrulhar o estômago.

Quase meia noite, eu não conseguia dormir, agitado. Preocupada, Gêisa chama o assistente do Xande de plantão. Que, depois de ouvir todo o meu drama, com um sorriso suave, concluiu assim:
- Então você ficou foi com raiva? Conversa comigo 5 minutos que isto passa.

Não era simples assim. No meu caso, eu fico colecionando rancor, deixando aquela mágoa perigosamente tomar conta de mim, disse eu para o médico.

Naquele momento, como em um estalo, eu havia aprendido o quanto minha arrogância me fazia mal. E quão grande era o caminho que eu tinha de percorrer para não deixar minha intolerância tomar conta do meu coração.

Como num passe de mágica, eu dormi um sono tranqüilo como há muito tempo eu não dormia. Acho que naquele momento Deus me perdoava de tudo quanto é bobagem que eu havia feito na vida.


12 comentários:

Leo disse...

Não lembro em que livro do Guimarães Rosa em que se dizia que "Deus existe para que as pessoas possam errar".

Anônimo disse...

Oww
DNA é foda mesmo, né? Onde já vi disso tbm ?
Mas e essa soberba de se achar perdoado, onde vc achou, hein? Manda este assistente gastar umas horas lá em casa, manda? Favor ??
Paulo h.

PC disse...

Pois é, Leo. Ainda bem que ele tem uma paciência interminável comigo.

PC disse...

Você vai saber, Paulo h., quando acordar de manhã.
Você acorda novinho. Aí fica sabendo que dormiu em paz.
Mas só tem jeito de saber depois.

Vai treinando, que Deus é grande pra nós todos.


Beijos.

Paulo C.

Leo disse...

Dado que o erro é condição para a maioria das coisas que valem a pena acontecerem, eu só posso supor que a paciência Divina persista pq vc ainda tem alguma coisa na lista de tarefas que Ele te passou...

;-)

BTW, estou virando o jogo aqui.

PC disse...

Sua história é parecida com a minha.
É só deixar o rancor e a mágoa de lado, que o jogo vira.
Beijos

Anônimo disse...

Rancor você sabe que não existe na nossa família. O problema é que todo mundo tem uma memória incrível!

Cuca

flaviacoelho5 disse...

Uai moço, e eu que achava q a rancorosa lá em casa era só eu???? e num é que de repente me aparece uma porrada de nego.....kkkkkkkk Bjs

PC disse...

No dia que você dormir perdoado, Cuca, nem lembrar você lembra mais.
É uma delícia.

PC disse...

Bobagem, fláviacoelho5. Deixa isto pra lá.
Nesta área, quanto menos companhia a gente tiver deve ser melhor.
Beijos

Adriana disse...

É nessas horas que a gente entende que Deus escreve certo por linhas tortas.
Não acho que precisavam ser tão tortas assim, mas enfim...

PC disse...

No frigir dos ovos, Adriana, acho até que as linhas foram bem harmônicas.