quarta-feira, 19 de maio de 2010

Seu Rui - 74


Este post já estava pronto na semana passada.  É que eu ando conversando muito com o Guguta, irmão do Marcelo, quando ele me contou esta história.  Ela é a cara da pureza deles.
Fiquei na maior dúvida se censurava ou não.  Resolvi que não.  Se você achar que é muita rasgação de seda, não dou nem bola.  Não é todo dia que um livro é dedicado pra gente...  Então lá vai:

Seu Rui era o pai do Marcelo.  Foi dele, claro, que Marcelo herdou aquela delicadeza toda que incorpora nas ilustrações com massinhas, deixando as crianças viajandando (eu, incluído).

Seu Rui era dentista.  Aqui em Belo Horizonte, era o dentista do Sindicato dos Motoristas de ônibus.  Nunca conseguiu caminhar, indo pro consultório.  Antes de chegar no primeiro quarteirão, um motorista sempre abria a porta da frente, privilégio que antigamente era dado só para os muito chegados (que, com isto, ficavam liberados de pagar a passagem)

Lá por 1940 e poucos, seu Rui passou por um perrengue brabo.  Morando em Ipanema[1], perto de Caratinga, cadê que o dinheiro dava pra criar aquela quantidade de filho bonito que ele tinha posto no mundo.  Só tinha um jeito.  Seu Rui foi tentar a vida em Vitória.

Chegando lá, começando vida nova, fechar as contas no fim do mês estava difícil com força.  A solução veio do amigo Antuer, proprietário do Laticínio Reutna[2], em Caratinga.  Mandou um saco com queijo, manteiga, mais um punhado de produtos pra Seu Rui tentar vender e ajudar nas contas.

Com sua pureza, seu Rui morria de vergonha de sair na rua, vendendo o presente do amigo.  Aliás, ia morrer de vergonha de vender qualquer coisa.  Armou uma estratégia infalível:  ia vender os produtos na praia mais distante, onde seguramente não tinha a menor chance de encontrar alguém conhecido. 
Na época, a Praia da Costa era o fim do mundo.  Seu Rui foi pra lá um pouquinho, por via das dúvidas.

E viu uma casinha lá longe.  Era onde ele iria oferecer, pelos trocados que conseguisse, aquela carga que fazia seu Rui suar como um condenado.

Seu Rui bate na porta.  Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, a porta se abre.  A pessoa abre um sorriso imenso e diz:
-  Doutor Rui, que alegria ver o senhor aqui!
Era uma família de Ipanema, que estava ali passando férias.

Seu Rui nem titubeou:
-  Mandaram esta encomenda pra vocês.  Tive um trabalhão danado pra achar o endereço...
E deixou com a família toda a carga que trazia, de pura vergonha.

Mas saiu dalí, feliz, certo que ia ter que resolver a vida com seu ofício de dentista.

Seu Rui criou os filhos todos, deixando de herança a capacidade de extrair felicidade em qualquer situação que eles se defrontassem.  Conheço quase todos.  Diria que seu Rui fez um belíssimo trabalho, colocando os filhos dele no mundo e me ajudando a ir construindo o Espírito do Valente.

 


[1] Atrevido, Marcelo sempre fala que ele é o Garoto de Ipanema.  E fica rindo, certo de que a pessoa jura que ele está se referindo a algum surfistazinho mal arrumado...
[2] Reutna, você já percebeu, é o nome do proprietário, de trás pra frente.

6 comentários:

vivi disse...

so uma coisa...
primeiraaaaaaaa!!!!!

outra coisa... te amoooo

saudadesss

PC disse...

Vivi La Vitesse.

Beijos

Emilia disse...

Se vc já é O LINDO, agora passou a ser também O MÁXIMO. Afinal,
ser eternizado por esse Marcelo tão artista e tão sensível quanto você, realmente é o máximo!!
Parabéns!! Beijo,
Emilia

PC disse...

O Vina, da Tom Comunicação, falou que era sol o que me faltava, Emília.
Agora ele lança o livro dia 12, no Espaço 104, e eu vou lá, achando que o livro é meu, fia.
Me achando, eu estou...

Adriana disse...

Mesmo não conhecendo Seu Rui, entendo bem o que você quer dizer. Conheço Dona Ester...

Não são histórias parecidas?

Beijos

PS: Voltei mesmo!!!!

PC disse...

Se segura, Vivi. Envem chumbo grosso agora.
Aninha, ele é dona Ester escrito.
Por isto Marcelo é meu irmão.